Quarenta e seis

– E então? Acha que valeu a pena?

A voz dela me acordou. Sorri antes de abrir os olhos e, quando os abri, procurei seu rosto. Minha vista já não era mais a mesma, mas nem precisava que fosse. Conhecia aqueles olhos castanhos há tanto tempo, que eram como luz a me guiar na escuridão.

– Qual parte? – perguntei, sorrindo, minha mão procurando a dela, erguendo a cabeça do travesseiro para poder ver seus olhos.

– Todas elas. Desde a espera, toda a paciência, o tentar compreender, passando pelas discussões, pelas broncas, pelos planos que não deram certo... – ela respondeu, encontrando minha mão sobre a coberta. Meu sorriso ficou mais largo, e recostei a cabeça novamente.

– Tudo. Absolutamente tudo. E você? Acha que valeu?

– Qual parte? – respondeu, com um sorriso zombeteiro.

– Todas elas, uai! A paciência com minhas crises, a dificuldade de me entender também, arriscar tudo outra vez, passando pelas discussões, pelas minhas compras impulsivas, pelas roubadas que eu inventei...

Ela riu, quase uma gargalhada, aquela risada gostosa que entrava pelos meus ouvidos e me aquecia o coração.

– Foram mais de quarenta anos, né... – disse ela, me provocando.

– Quarenta e seis, contando tudo. Você nunca acerta a conta, e sempre esquece as datas também, não é?

– Mais ou menos... Sabe como sou desligada. O romântico sempre foi você.

– E você, a “prática”. – respondi, com um leve tom de ironia na voz.

– Me chamaram de fria por muito tempo, em muitas ocasiões. Você foi o primeiro a me enxergar assim.

– É porque eu sou muito foda. Eu sei. – ela me encarou e, antes que me interrompesse, continuei – E além disso, é porque eu conheço sua essência, claro. Não ser tão cheia de lero lero como eu não quer dizer que sinta menos. Apenas sente diferente. Não foi muito fácil, confesso, mas depois que comecei a entender isso, ficou mais fácil de aceitar e de enxergar as demonstrações. E aí eu percebi o tamanho do amor que colocava em cada coisa que tocava e fazia...

Ela sorriu novamente, apertando minha mão entre as suas. Eu adorava aquele sorriso.

– Tipo aquela vez que fomos pra Itália. – continuei, e ela gargalhou. – Eu, dando crise por causa de passagem e mala, querendo começar uma discussão no táxi, e você me calou com meia dúzia de palavras.

– “Vai adiantar dar show? Não. Então sossega, e a gente vê quando chegar lá.”

Foi minha vez de rir, com a expressão que ela fez. Exatamente a mesma daquele dia. Nessa hora, o fôlego quase me faltou, e comecei a tossir.

– Calma, meu bem. – disse ela – Aqui, toma um gole de água. Respira. Isso...

– Obrigado...

– Amei aquela viagem pra Itália. Foi linda. Queria que as crianças tivessem ido também.

– “Crianças”, você diz. Os dois já tinham mais de vinte, os gêmeos já tavam na adolescência e adoraram ficar sozinhos por dez dias. Teriam mais atrapalhado do que curtido. Além disso, fazia muito tempo que não viajávamos só nós dois. A gente merecia aquele tempo.

– Sim, com certeza. Faz até eu me lembrar da primeira viagem só nossa.

Gargalhei novamente, até realmente perder o fôlego dessa vez.

– São Roque – eu disse, meio ofegante –, aquele fiasco...

– Ah, não foi um fiasco. Foi divertida!

– Tempos depois, né... Quase caímos com a moto, tomamos uma lavada de lama, sem contar aquele frio que não deixou aproveitar nada.

– Eu não disse que foi bem aproveitada. Disse que foi divertida.

– Justo. Isso é verdade.

– Tanta coisa, não é?... – disse ela, suspirando.

– Sim... É muito tempo. E eu me alegro com cada dia.

Ela sorriu.

– Aquele primeiro apartamento, meio velho. O piso de madeira todo riscado. – continuei – O perrengue pra comprar um carro, a briga por causa do aluguel...

– Por esse lado, foi bom ter te ouvido. – disse ela – Eu queria tanto comprar um apartamento, uma casa, qualquer coisa, mas foi bom ter morado de aluguel tantos anos, apesar de eu ter reclamado muito na época.

– Sim. As “crianças” caçaram os próprios caminhos, construíram os próprios lares, como era de se esperar. E enquanto estivemos todos juntos, eles até curtiram as mudanças. Novos ares, novos móveis, novos vizinhos.

– E quando finalmente decidimos comprar a nossa...

– Daí, é minha vez de dizer que foi bom te dar ouvidos. – respondi, rindo – Eu tinha fixação por Florianópolis, mas admito que já tava velho pra enfrentar o frio que faz no sul. Ilhéus definitivamente foi a melhor escolha que fizemos.

– Nossa, você, reclamando de frio? O que aconteceu? – disse ela, zombando de mim.

– Oxi, não to reclamando! – respondi, em tom de brincadeira – Continuo adorando frio! Mas confesso que, hoje, prefiro por foto... Meus ossos já não têm mais a mesma resistência de antes.

– Os meus nunca tiveram...

– Eu sei. Mas ainda assim, você se divertiu igual criança pequena na neve.

– Com duzentas camadas de roupa, logicamente. Mas tinha que aproveitar, não é? Sabe-se lá quando conseguiríamos fazer uma viagem como aquela de novo.

Suspirei.

– Obrigado...

– Por quê? – ela perguntou.

– Por tudo. Mesmo nas horas que você não tava tão a fim, me fez companhia. Com alguma insistência, e às vezes com uma cota de drama também, mas ainda assim fez.

– E no final, na grande maioria das vezes, eu aproveitei muito. Obrigado também. Você fez o mesmo por mim, tantas vezes. Talvez até mais...

– Deixa de ser boba! Já debatemos isso tantas vezes... Mais e menos é subjetivo. Pra mim, eu fiz nada e você fez muito. Pra você, eu fiz muito e você fez nada. No final, nós dois fizemos muito e nós dois fizemos nada. Acho mais justo assim.

Uma lágrima brotou em seus olhos, junto com um sorriso melancólico, triste.

– No final...

– Ei, não chora Gatinha. Nós sempre soubemos que um dia ia terminar...

– Mas não era esse o combinado. Eu devia ir primeiro...

– Eu precisava te dar esse último troco. – respondi, sorrindo e zombando.

– Como assim?

– Ué, você sempre quebrou meu sistema, lembra? Tantas crises que eu tive porque, com toda minha sistemática, você sempre me desconcertava. Dessa vez, eu estou quebrando seu sistema. Tá vendo só?

Ela hesitou. E então disse:

– Eu... só não queria ficar sozinha...

– Quarenta e seis anos. Acha mesmo que vou tão fácil assim?

– Não quero assombração também, né!

– Não é assombração. É companhia, proteção. Tão logo eu esteja em condições, tenha certeza que volto pra cuidar de você. Sempre. Eu prometi...

Ela apertou mais minha mão, baixando os olhos. Soltei minha mão das dela, toquei seu queixo e ergui sua cabeça, olhando-a nos olhos.

– Além disso, são quatro pra te fazer companhia. Quatro casas pra visitar, dá pra passar três meses em cada e nem precisa voltar mais pra cá, se não quiser!

– Mas eu quero...

– Então volte, quando quiser. Tenho a impressão de que logo teremos crianças de fato correndo por aqui...

– Você e suas intuições... Isso me assusta às vezes...

– Não se assuste. Dessa vez, ela é linda. – ela sorriu, entre lágrimas – Deita aqui – eu disse, batendo com a outra mão ao meu lado –, dorme comigo hoje...

– Não vai te incomodar?

– Você nunca incomoda. Sua companhia sempre me faz melhor... vem cá...

Ela contornou a cama, se deitou ao meu lado, apoiada no meu ombro, minha mão a lhe acariciar os cabelos. E assim nós dormimos, como se fosse nossa primeira noite, quarenta e seis anos atrás...

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