Lá fora, a chuva...

Lá fora, a chuva chora. Chora de saudade, de distância. Chora de dor e sofrimento. Chora de alegria e alívio, chora e comemora. E a chuva, lá fora, também molha. Molha o saudoso, o triste e o desesperado. Molha o alegre e o festivo. Molha e olha e chora por tudo e por todos. E o frio, esfria. Esfria os ânimos e as vontades. Esfria as almas e os corações. Esfria os ânimos e as dores. Esfria as vontades e os desejos, corpos e pensamentos. É como se o mundo todo fosse outro, como se tudo estivesse fora do lugar. Ou talvez é como se o mundo ainda fosse o mesmo, mas os olhos que o percebem mudaram, já não fossem mais os mesmos. Já não sei mais dizer. Só o que sei é que a chuva chora. E a chuva molha. E o frio esfria. Mas as coisas já não são como são. Algo renasce e recomeça e aqui dentro, o frio não chega. É uma chama que se acende e aquece o calor e ilumina a luz. E é uma chama fraca, tímida, frágil e delicada. E violeta. E violenta. Porque é uma chama. E o fogo que aquece é o fogo que destrói, são chamas que queimam e ardem e devastam. Mas é das cinzas que a fênix renasce. E o que é um novo mundo, senão uma pilha de tijolos sobre as ruínas do velho?!... Algo muda. Não sei exatamente como. Nem onde. Nem como. Mas muda. E as coisas nunca mais serão como foram. E as coisas nunca mais terão o que tiveram. E as pessoas nunca mais viverão como viveram. E o mundo não será mais o mesmo. Porque o mundo já não é mais o mesmo. Abra os olhos e veja. Abra o coração e saiba. O que os olhos não vêem o coração diz em alto e bom tom, grita e escancara e não esconde. Porque o que o coração sabe, os olhos demonstram. Impossível é esconder sua alma, sua essência, sua verdade. Olhos nos olhos trespassam qualquer muralha de carne e a verdadeira visão independe da retina. Duas almas que conversam entre si não podem se esconder. E a mudança do mundo vem da alma. Vem de dentro. Vem da chama. Dessa chama que nenhuma chuva molha, que nenhum frio esfria. Dessa chama que faz a chuva parar de chorar e transforma a depressão em ascensão. Dessa chama que queima, arde e destrói, deixando pra trás as cinzas que fertilizam o solo novo e a esperança da vida que recomeça. Algo muda aqui dentro. Algo já mudou aqui dentro. Feche os olhos e veja. Abra o coração e entenda. Deixe a chama chamar.

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Pois é, é isso mesmo. Nem sempre eu entendo o que escrevo, mas sempre sei que tem algo a ser entendido aí. Outro dia, um Anjo, desses que literalmente salvam vidas, me disse que uma das minhas postagens tinha "sido feita pra ela" e, embora eu dissesse que escrevera pra mim mesmo, ela ainda insistiu em dizer que não, que era pra ela. Bom, talvez tenha sido mesmo. Exatamente pra ela. E pra mim também. E pra quantas pessoas tenham vestido aquela carapuça. E tantas outras carapuças que tenho tricotado há alguns anos. O que pouca gente percebe é o tamanho da semelhança que há entre nós. Quando olhamos pro próprio umbigo, só o que vemos são nossas cracas e nossas sujeiras e nossas necessidades e só o que buscamos é nossa limpeza e nosso suprimento. Mas, se confiarmos na divindade que rege a existência do universo e levantarmos a cabeça apenas pra uma rápida olhada pro próximo, perceberemos que ele também olha o próprio umbigo. E, num esforço inútil, tenta limpar suas cracas e satisfazer suas necessidades. Que são exatamente as mesmas que nós enfrentamos. Levante a cabeça e abra os olhos. Olhe ao seu redor. Perceba seu irmão, logo ao lado. Entenderá que ele é você e você é ele e poderá facilmente se confundir com ele, até que aprenda a perceber a verdadeira individualidade e compreender a unicidade da existência e da personalidade e saiba se construir como entidade única. A vida em comunidade permite que nos vejamos refletidos nas outras pessoas, como se olhasse pra mim mesmo mas com outro rosto e outro corpo e até mesmo outro gênero. E então compreendemos a semelhança entre todos nós e, a partir daí, nos tornamos capazes de distinguir verdadeiramente a exclusividade e construir a própria existência. Chame isso de "encontrar a sua verdade". Ela está em você, mas não é olhando pra dentro que a encontrará. É olhando pra fora, para o próximo, buscando aprender o que é de todos, o que é dele e o que é meu, para então, lentamente, ser capaz de dar vazão a sua essência e deixar o divino agir através de suas mãos. Porque é isso que somos, ferramentas divinas buscando o bem próprio e o bem próximo. Buscando o bem de todos. Porque é o conjunto de individualidades que forma a humanidade, e a convivência em harmonia é o melhor meio de lutar contra cânceres que nascem quando a célula se revolta contra o corpo. Ame. A si mesmo, primeiro, ao próximo, depois. Mas ame, de verdade, ame como quem quer bem, como quem deseja felicidade, como quem constrói vida, como quem é livre e respeita a liberdade. Você pode não acreditar, mas o amor é tão simples quanto parece.

E assim como o ano começa depois do carnaval, o segundo semestre começa em agosto. É o mesmo ano, recomeçando. Muitas águas rolaram em março e em setembro chove, sim. E o ano recomeça...