Libertação

"Pensa no inferno" foi a frase dita antes do disparo. E então ouviu-se aquele som de pólvora explodindo no cartucho de uma arma de fogo.

Tudo começara muitos anos antes. Tantos que nem dava mais para contar. Uma história que se confundia com a própria vida daqueles dois personagens. A opressão e a submissão, porque toda passividade precisa de uma atividade. De um lado, aquele que recebia ordens, realizava desejos, acatava imposições e nunca se queixava. De outro, aquele que ordenava, e só. Desde o começo fora assim, até que a submissão se cansou de submeter-se quando passou a observar o mundo. Via cores e sabores, via formas e conteúdos. E quando tentou alcançá-los, percebeu as grades que a restringiam. Foi então que passou a observar o entorno de si e percebeu o que construíra: um mundo limitado, engaiolado, que, de repente, tornou-se intensamente sufocante. E foi por isso que tentou conversar.

Mas não soube quais palavras utilizar, visto que nunca precisara delas. Percebeu que sequer conhecia o som da própria voz. E, quando tentou pensar no que gostaria de dizer, notou que não sabia o que gostaria, quiçá o que dizer! E implorava com os olhos, mas a outra personagem não os via. Gemia súplicas que, quando ouvidas, eram rechaçadas com grunhidos agressivos e opressores. E, assim, pouco a pouco, minguou. Qual uma estrela que perde o brilho e pouco a pouco se retrai. E, qual uma estrela retraída, que armazena energia até que se torna incapaz de contê-la, explodiu como se fosse uma supernova. E foi então que aconteceu.

Naquele dia, tudo parecia diferente. O café parecia mais doce, percebeu aquele que oprimia. "Que café melado!" reclamou. "Eu gosto assim", ouviu, surpreso, ao perceber de onde vinha a voz. Achou por bem ignorar e seguiu seu caminho, deixando pelo caminho uma xícara meio vazia de café. Não sabia explicar se era a falta do estimulante matinal ou aquela voz surpreendente que afetara sua capacidade, mas o fato era que aquela manhã estava diferente. O trabalho tinha outro ritmo, o ar tinha outro odor e sentia-se a si mesma como uma pessoa diferente. E com essa informação ainda em processamento, dirigiu-se para o almoço em casa. Uma nova surpresa quando encontrou a outra sentada à mesa, já se alimentando. "E o meu prato?" perguntou. E um dedo de boca cheia apontou para a louça vazia que jazia sobre o outro extremo da mesa. "E a comida?" tornou a perguntar. E o mesmo dedo apontou para o fogão. "Não vai me servir?" oprimiu. Silêncio. E somente quando o conteúdo daquela boca foi deglutido, pôde ouvir um "Não" bruscamente interrompido por outra porção de alimento. Estupefato, sem saber o que fazer ou falar, dirigiu-se às panelas e inspecionou o conteúdo. "Sabe que não gosto disso", reclamou. Silêncio. Quis oprimir, quis agredir, mas sua boca abriu-se e fechou-se incapaz de articular uma resposta. Era como se aquele ar denso e pesado estivesse limitando-o. Sentia-se... oprimido. "Vou almoçar na rua", desafiou, e viu-se obrigada a cumprir quando só obteve silêncio como resposta. E aquela tarde transcorreu ainda mais estranha. Não sabia como agir ou reagir. O mundo parecia desafiá-lo e tudo parecia desconexo. E, enquanto voltava para casa ao término daquele dia que parecia combinado para confundi-lo, tentando reorganizar idéias que o deixavam cada vez mais confusa, a única coisa que conseguia pensar era que aquilo precisava acabar naquele mesmo dia! E acabaria.

Abriu a porta e entrou, resoluto, punhos cerrados e respiração bufante numa postura ameaçadora. E a última coisa que sentiu foi uma dor intensa na nuca. Despertou com a cabeça pendendo sobre o peito. Gemeu e tentou amaldiçoar, mas sua boca amordaçada não proferiu aquelas palavras. Quis se mexer, mas seus movimentos foram limitados por cordas em seus punhos e cotovelos e ombros e tornozelos e joelhos e quadris. Olhou em volta, já desesperado, e reconheceu o terraço do prédio onde vivia, parcamente iluminado pelas estrelas. "É ruim, não é?" ouviu, naquela voz que ainda lhe soava estranha, mas que já era capaz de reconhecer o dono. "As amarras, a mordaça, a postura imposta por outra pessoa. A incerteza e a insegurança de ter de obedecer e confiar naquele que supostamente possui uma força maior que a sua." E então sentiu o toque frio e arredondado de uma extremidade metálica. E paralisou-se, numa demonstração extrema do mais puro medo. Sentiu aquele toque se afastando e então ouviu novamente aquela voz, vinda de um lugar mais distante. "Pensa no inferno" foi a frase dita antes do disparo. E então ouviu-se aquele som de pólvora explodindo no cartucho de uma arma de fogo. Seguido de silêncio. Não sentira impacto. Não sentia sangue escorrendo. Não havia dor. Portanto... E então uma lágrima. E outra lágrima. Seguidas de outras dezenas que se ligavam umas às outras formando um fluxo contínuo de compreensão e arrependimento e dor e sofrimento. "Dói, não dói?" E o som daquela voz misturou um pouco de alívio e medo ao sabor daquelas lágrimas. "Imagine, então, uma vida inteira assim. Mas sem entender o que acontecia. Até finalmente sentir a ficha cair e a compreensão chegar. E então sentir a incapacidade de se libertar. Mas tudo tem um limite e eu fui até onde pude, até ter que escolher entre implodir ou explodir. Eu quis te matar hoje, mas não suportaria viver com seu cadáver na minha consciência. Eu quis me matar hoje, mas isso não resolveria meu problema. Por isso, antes que chegasse a esse extremo, eu resolvi me libertar. E por isso, eu estou indo embora." Sentiu as cordas que lhe prendiam os braços se afrouxarem. E, quando se virou, só teve tempo de ouvir um desejo de "Seja feliz" proferido por aquele anjo que se libertava do cativeiro.

Repaginando

"Preciso escrever..." repetia ele para seus próprios ouvidos, incessantemente. Há dias. Há muitos dias. Tantos dias que quase compunham anos. "Preciso escrever..." insistia ele, em frente à tela do computador com o cursor piscante do editor de texto. Estático, ele mais que o cursor, cujo único movimento era o piscar característico daquela ferramenta. Nada de muito preocupante, para pessoas em geral. Mas para um escritor, era um problema considerável. Quase dois anos. Há mais de metade desse tempo, a editora o pressionava por um novo best seller. E ele lá, tentando. Tentando. E tentando. Mas não conseguia. Faltava-lhe... Pois é, faltava-lhe tanto, que sequer sabia dizer o que lhe faltava. Mas sabia que faltava. E não encontrava. E sentava ali, diariamente, horas a fio, estaticamente, pulsando na mesma freqüência do cursor, produzindo tanto quanto uma abelha falecida. E então, preservando a rotina já estabelecida há tantos dias que compunham anos, levantou-se. "Espairecer e buscar inspiração" era o motivo que justificava para a própria consciência. Carteira de cigarros na mão e isqueiro no bolso. "Lá fora, o mundo é cheio e as idéias são vastas, quem sabe é hoje..." pedia ele, sabe-se lá a quem.

E, naquele dia, nem mesmo precisou ir longe. Logo ao sair do portão de sua solitária moradia, ainda acostumando-se à luz intensa daquele sol escaldante, a mão esquerda ascendia o filtro do cigarro até a boca enquanto a direita trazia o isqueiro. Sem saber uma causa ou razão que pudesse explicar o porquê, olhou naquela direção e viu. O polegar estacou em uma mão imobilizada a meio caminho entre o bolso e os lábios que prenderam o cigarro que escapou dos dedos. Estático, plenamente. Nem mesmo o pulsar do cursor o mobilizava. Mas, dessa vez, não havia apatia ou acinesia. Só o que havia era aquela visão. Cabelos longos e soltos. Não eram tão volumosos, mas desciam tal e qual a corredeira mansa de um riacho em paz. Lábios pequenos e intensos e olhos vivos e brilhantes. Cativantes. Uma simetria que beirava o fascinante e ultrapassava o maravilhoso quando os olhos percorriam todo aquele corpo em harmonia consigo mesmo. E então, ele viu. A si próprio. Aproximou-se dela com um discreto e quase inaudível "Com licença, tem fogo? Meu isqueiro acabou de acabar..." com uma expressão envernizada num sorriso tímido de quem se sente incomodado pelo incômodo que causa. "Desculpe, mas não fumo" foi a resposta, educada porém terminal. "Faz bem, fumar mata, dizem por aí... Mas não tem nem um fósforo de acender fogão? Preciso muito acender esse cigarro agora..." foi a resposta dada por uma face tão polida que brilhava aquela timidez meiga, sedutora e calculada. "Um momento, vou ver com a minha vó" replicou um olhar antes frio porém agora curioso. Foi e voltou em poucos minutos com uma caixa de poucos fósforos desculpando-se "Só tinha os de acender incenso, pode ser?" "Claro... Muito obrigado" foi o retorno de um rosto aliviado. "Você está bem?" perguntou ela, com sincero interesse. "Estou sim... Apenas um pequeno problema que tem me incomodado um pouco, mas espero resolver logo." "E eu posso ajudar em algo?" "Já está ajudando, na verdade. Eu só precisava de um motivo pra puxar assunto e meu problema seria você entrar pra pegar os fósforos e não voltar..." respondeu um sorriso de verniz lixado e honesta expressão amadeirada. E ela, sorrindo um sorriso de 'eu sabia', pede "Autografa meu livro?" "Como?" "Autografa meu livro? Você é aquele escritor, não é? Tá um pouco mais novo na foto, com todo respeito, mas é você, né?" Um suspiro e uma expressão de 'não é bem assim' e ele diz "Se quiser, eu autografo, mas a única coisa que eu escrevo são listas de supermercado e folhas de cheque sem fundo. Mas, pra um rosto tão bonito e angelical, fica difícil recusar um pedido desses." E ela, agora com uma vermelhidão crescente e ascendente a aquecer-lhe todo o rosto, pergunta "Mas não é você?" "Adoraria, mas não... Tenho que admitir que somos bem parecidos, e você não é a primeira que faz essa confusão, mas infelizmente não sou eu. Não tenho capacidade pra escrever tão bem assim..." respondeu ele como quem acredita em uma crença que começa a nascer em seu próprio pensamento. E, vendo-a esconder-se atrás do livro, rubra qual uma maçã madura, concluiu "Mas não se preocupe, não me incomodo. Gostaria de ser tão bom quanto ele, mas nem todos nascem com esse dom... Eu tenho outros, felizmente." "Sério? E quais são seus dons?" devolve ela, ainda hiperemiada acima do normal. "Não posso comentar em público e muito menos nesse horário... Se quiser, podemos ir pro meu quarto e eu te conto lá..." foi a resposta acompanhada de um sorriso de intenção pouco esclarecida. Uma expressão surpresa que tanto podia ser sincera quanto fingida respondeu "Que indecência! Fazendo uma proposta dessas pra uma moça de respeito no meio da rua!" E ele, com um sorriso agora debochado "Calma, anjo... Não quero ofender sua dignidade, mas não podemos falar de assassinatos em série em plena luz do dia, concorda?!" Uma gargalhada sonora, sincera. "É, tem razão... Aí fica meio arriscado. E, pelo visto, bom humor é outro desses dons, né?!" "O maior deles, talvez..." foi a resposta de um sorriso cativante recebida por um olhar cativado.

E, nesse momento, a mão direita devolveu o isqueiro no bolso e os dedos da esquerda pescaram o cigarro que ameaçava cair. Ainda via a projeção mental do seu próprio ser interagindo com aquela musa que sequer sabia quão inspiradora era. E, apesar de a verdadeira não ter acompanhado o deslocamento da criação onírica daquela mente divagante, aquele casal saiu dali em direção a 'outro lugar' para que pudessem 'se conhecer melhor', enquanto ele voltava para dentro de casa. Economizara um cigarro, mas usaria aquele cursor piscante como há muito não o fazia. Não acreditava em amor à primeira vista. Não acreditava em divindade. Não acreditava em muita coisa. Aliás, acreditava em nada. Mas não precisava acreditar. Nunca precisara. Desde sempre, fora um criador de crenças, e não um crédulo. E sabia que por isso era lido. E, mesmo sabendo que precisava repaginar-se, reinventar-se, renovar-se, não o fazia. Ao menos, não externamente. Estava sozinho. Ou melhor, era sozinho. Muito mais que um estado, aquela solidão era uma característica inerente, indissociável do seu ser. Por opção, pura e simples opção. Consciente, acredite se quiser. E, quando questionado se não sentia falta de viver uma vida, ele respondeu "Não, porque eu vivo várias vidas." E era assim que escrevia a própria história. Seu espírito era livre para viver quantas vidas quisesse. E seu corpo estaria sempre ali, pronto para transformá-las em sucessos literários.

Era só um elefante...

"Amor, acho que escutei um barulho lá fora" disse ela, com olhos semicerrados. "É só impressão querida, pode voltar a dormir" respondeu ele, sonolento. "Mas amor, eu tenho medo... e se for um ladrão?" "Se for, ele é que tá lascado. Nós moramos no bairro mais seguro da cidade, temos alarmes nas portas e janelas e uma dúzia de câmeras de vídeo. Pode dormir sossegada." "Mas amor..." "Grunfglorbhsfff" grunhiu o companheiro, enquanto se levantava. Barulhos e sons, botões, portas, fechaduras, silêncio. Poucos minutos depois, ele volta "Era só um elefante violeta, meu anjo. Pode voltar a dormir. Vou lá fora fumar um cigarro pra aproveitar que levantei e já volto" disse abrindo a gaveta e retirando algo de dentro. "Traz um copo d'água na volta..." "Algo mais?" "...com um pouco de groselha..." "E...?" "...umas gotinhas de limão..." "Tá bom... Sempre assim, né?! Tudo que você me pede sorrindo, eu faço chorando. Há onze anos." "Doze, você sempre erra!" "Onze, meu amor. No primeiro, eu fazia sorrindo..." Dois sorrisos, carinhosos, um dele e outro dela. Doze anos. Praticamente o tempo de uma vida. Doze anos de partilha e companheirismo. Sempre o mesmo bom humor, sempre a mesma fragilidade. No começo, era tudo surpreendente. Por começo, entenda como dois anos, talvez três. Depois, uma certa rotina foi criada, mas as surpresas esporádicas sempre reavivam o interesse e a curiosidade, de ambos os lados. Ambos achavam incrível o fato de, mesmo após tanto tempo, ainda encontrarem novidades no outro. E ambos também sabiam que ainda havia muito a ser revelado, embora não soubessem se um dia o fariam.

Doze anos. Era o tempo que ela escondia aquele segredo dele. E muitos anos antes já carregava aquele sigilo. Por fora, funcionária do alto escalão de um ministério. Cargo de confiança. Muita confiança. Chegava a passar quase vinte dias em atividade contínua, viajando. Seguidos de alguns dias em casa, de folga relativa, apenas preenchendo formulários e relatórios. Geralmente uma semana, às vezes um pouco mais. Raramente, bem mais. Na realidade, a coisa era um tanto quanto diferente. Quando ele se levantou e saiu pela porta do quarto, um movimento rápido de uma mão ágil trouxe uma pequena pistola calibre vinte e dois do fundo falso da gaveta do criado mudo até embaixo do travesseiro. Tanta fragilidade tinha dois motivos. O primeiro, óbvio, era sentir-se cuidada, afinal de contas, ela era uma mulher! O segundo, sigiloso, era dispersar a atenção. Assim, ficava quase impossível desconfiar do trabalho de infiltração e espionagem que executava. Trabalhava para o governo, sim, mas sua função era outra. Especialista em contra-espionagem. A melhor. O crachá daquele ministério era a camuflagem perfeita, dando-lhe status de 'auditora' para penetrar qualquer esfera do governo em qualquer local do país. Tanto medo, na verdade, era apenas a cautela necessária a quem precisa sobreviver. Não temia ataques, saberia revidá-los, pois fora treinada para tal. Mas, ainda assim, preferia a cautela naqueles espaço onde vivia sua fantasia. Ou sua realidade, já não sabia mais dizer. Cada vez que se via em um mundo, o outro parecia apenas uma fantasia, um sonho distante. Era nisso que pensava enquanto ele saía com o cigarro na mão. De lá, a marca da aliança no quarto dedo esquerdo lhe dava segurança dessa verdade. De cá, a pistola no criado mudo lhe assombrava com a outra verdade. Do mesmo fundo falso, puxou o monitor portátil que só ela sabia existir. E observava seu protetor doméstico pelas câmeras de segurança. Adorava seu bom humor e seu riso fácil. Válvulas de escape de uma vida estressante, dizia ele. Via-o na calçada, falando sozinho, gesticulando energicamente como se falasse com alguém fora do vídeo. Ela o via fazer isso com certa freqüência, e, quando enfim teve coragem de questioná-lo, "Sou eu gritando com funcionários imaginários, pra não fazer isso na empresa" foi a resposta ouvida. Coitado. Tão estressado, por tão pouco. Se ao menos ela pudesse compartilhar um pouco do seu mundo com ele. Se ao menos ele imaginasse a realidade surreal que ela vivia. Às vezes, sentia-se a personagem de um filme. Mas sabia que era tudo verdade. E sonhava com o dia em que ele descobriria tudo, meio por acidente. Aí, enfim poderia desabafar e compartilhar. Mas sabia que era um sonho, apenas. Mas um dia, quem sabe, teria coragem de revelar a surpresa máxima que ela levava. Um dia, quem sabe...

Doze anos. Era o tempo que ele escondia aquele segredo dela. E uma vida inteira antes já carregava aquele sigilo. Por fora, um grande executivo da indústria alimentícia. Dono de toda uma cadeia produtiva poderosíssima, herdada de seu pai e gerida ao lado de seu irmão. Ele cuidava dos negócios na cidade, enquanto o outro geria os investimentos no campo. Trabalho estressante. Muito estressante. Piadas e gracejos constantes eram uma forma de desabafo e alívio. Uma forma de dizer a verdade sem que os outros suspeitassem. Tudo começara antes mesmo de seu nascimento, quando seu pai herdou aquele maldito guarda-roupa de um parente europeu tão distante que sequer tinha o mesmo tipo sanguíneo. A empresa de gêneros alimentícios era real, uma excelente camuflagem para o verdadeiro trabalho executado, pela enésima geração consecutiva daquela família. Aquele país supostamente imaginário demandava uma atenção verdadeira demais. "Dizem que os elefantes nunca esquecem, então você deve ser uma anta, seu paquiderme inútil!" vociferava ele, contendo o volume de sua voz para que ela não ouvisse. E o pobre elefante, de violeta se tornava quase vermelho, de tanta vergonha e medo. Abaixava a cabeça e encolhia a tromba, e quando ensaiou uma resposta excusa e tímida, foi interrompido "Olha," dizia ele, entre irritado e compassivo, "eu sei que não é fácil pra vocês, mas eu preciso da colaboração de todo mundo pra fazer isso dar certo! Já pensou se descobrem você aqui? É zoológico na certa! Eu já cansei de repetir, quando o carro vermelho estiver na garagem, não é pra se aproximar! Significa que minha esposa está em casa." Pausa. Precisava de fôlego e de algumas tragadas. E o paquiderme, ainda acuado, sabiamente optou pelo silêncio. "Eu não tenho como te colocar em casa, não hoje. Ela chegou ontem e ainda não tem data pra viajar de novo. Você lembra onde é a fazenda?" E, vendo o pobre animal se encolher até quase o tamanho de uma formiga, explodiu de novo "Mas puta que pariu, tem certeza que você é um elefante? Como você lembra de comer todo dia? Presta bem atenção, vou explicar de novo. Passa o muro do condomínio, aqui atrás de casa, vira à direita e segue a estrada até a bifurcação. Depois segue à esquerda, tá me ouvindo?! Esquerda! E vai até o fim que a estrada termina na fazenda. Eu tô sem tinta vermelha pra te esconder na plantação de tomate, mas, por sorte, os figos tão maduros, então você se esconde no meio do pomar de figos, entendeu? E lembra de ir pelo lado de cá, que é onde não tem câmera. E fala praquele macaco imbecil que eu sei que ele tá aqui, não adianta tentar se esconder. Leva ele junto e fala praquele banana que se ele atacar meus maracujás de novo, eu corto fora as bolas dele! Amanhã eu arrumo uma desculpa e vou até lá terminar de resolver isso." E observava aquela imensa massa arroxeada se afastar enquanto terminava de fumar seu cigarro. Já dentro da cozinha, enquanto preparava a groselha, pensava no quanto gostaria de poder compartilhar aquela realidade com sua amada. Via-a em seu mundo ministerial, burocrático e monótono, e tinha medo de qual seria sua reação se um dia ela descobrisse. Mas, ao mesmo tempo, torcia para que ela descobrisse, meio por acidente, pois daí seria obrigado a revelar aquela verdade. "Uma verdade cada vez mais difícil de esconder" sussurrou para si mesmo, enquanto se encaminhava para o quarto. Abrindo a porta do quarto, ouviu a gaveta do criado mudo se fechando. "Espantou o elefante?" perguntou ela. "Levou um esporro tão grande que de roxo saiu branco, coitado." E, enquanto a abraçava, já deitado novamente, pensava no quanto a amava. E, pela primeira vez em doze anos, pensava no quanto desejava que ela viajasse logo. Acima de tudo, queria tê-la por perto. Mas, infelizmente, com ela por perto, seria difícil dar um destino àquele atum escondido na caixa d'água sem levantar suspeitas...

Onipresença

"Doutor, ele vai parar!" disse ela. "E o que você espera que eu faça?" retrucou ele. "O seu trabalho." Curta e grossa. Sempre fora assim, desde pequenos. Quatro anos de diferença. E, ainda assim, as primeiras palavras dela foram ordens para o irmão. E assim foi uma vida inteira. Ela mandando e ele reclamando. Às vezes, ele obedecia. Às vezes, ela cedia. Quem olhava de fora, via dois irmãos em constante conflito. Mas, de dentro, ambos conheciam bem aquele equilíbrio que funcionava entre eles.

Compreendiam-se como só duas almas gêmeas poderiam se entender. E engana-se quem pensa que almas gêmeas são apenas apaixonados. Almas gêmeas são aquelas que se complementam, independente do relacionamento. E aqueles dois se completavam de uma forma curiosa. Ela era a iniciativa, a energia, a fagulha. Ele era a execução, o movimento, a combustão. E, juntos, eram a plenitude de uma grande obra. Quando agiam juntos, era um espetáculo belíssimo de se ver. Bailavam numa sincronia incrível. Deslocavam-se em passos coreografados plenos e perfeitos. De uma forma tão natural que era assombrosa.

Talvez por isso, talvez por outro motivo desconhecido, singraram caminhos diferentes em um mesmo rumo. Ele, médico. Ela, enfermeira. Alguma estranha coincidência do universo, se é que elas existem, fez com que se graduassem juntos. E ela, contratada do hospital onde ele fora admitido como residente. E, numa repetição de sua infância, amadureceram juntos novamente. Profissionalmente. No começo, engraçado do ponto de vista do observador externo. Mas, aos poucos, começaram a entender aquela estranha dança que, só agora, tantos anos depois, fazia sentido àquele que assistia. Pouco a pouco, conquistaram respeito e espaço na instituição. E os novatos que riam da enfermeira mandona e do médico submisso eram rapidamente repreendidos pelos mais antigos. Afinal, quatro braços e dois cérebros compunham uma unidade quase onipresente. Tal e qual um anjo que encarna em dois corpos.

Foi tudo um mal entendido...

"Então é isso, foi tudo um mal entendido..." disse ela. E sorriu. Uma doce e carinhosa ironia, ali, no meio daqueles lençóis flanelados, simples e rústicos, porém quentes e aconchegantes como nunca experimentara antes. Não entendia. Ou melhor, entendia, mas ainda não aceitava. As cores eram mais coloridas. Os cheiros mais cheirosos. Os toques mais intensos e sons mais melodiosos. Era tudo tão real que nem mesmo parecia realidade. Era tudo tão... vibrante... claro... natural... Quase como se não pudesse ser diferente.

"É... acho que foi mesmo..." disse ele em outra doce e carinhosa ironia naqueles mesmos lençóis. Sorrindo. Aquele sorriso que há tempos não lhe saía do rosto, quase como uma paralisia de Bell que idiopaticamente acomete os incautos. Mas, apesar da incautela de sua parte, ele bem sabia que não havia idiopatia nenhuma naquele espasmo muscular, pelo contrário, era uma etiologia muito bem conhecida. Um mal entendido...

Tudo começara sabe-se lá quanto tempo atrás. É impossível contar passado e futuro quando apenas o presente existe. Mas independente de quando, ele lembrava das vestes azul-celeste que ela usava quando se viram uma primeira vez. Aquele mesmo tom de azul que serve de fundo para os anjos que habitam o Éden. Pelo menos, era assim que ele se lembrava. Ela bailava por aquele salão de poucas janelas, deslocando-se graciosa e precisamente, como se tivesse certeza do que fazia, tal e qual um pássaro que dança pelos céus. O mal entendido começou ali, quando ele não entendeu quem era ela. E continuou ali, quando ela não viu quem era ele. Era apenas mais um dentre tantos, num terno azul-marinho como os oceanos mais límpidos e profundos. A diferença era apenas um sorriso fácil e uma atitude espontânea, repleto de graciosidades e acrobacias, tal e qual um golfinho que rasga a superfície d'água. E tudo começou com um gracejo, uma inocência. "Precisa de alguma coisa?" perguntou ela. "Um pouco de atenção" respondeu ele, sorrindo. E ali estava destruído o gelo que os separava.

Mudaram-se os tons de azul. Variou-se para verde, branco e até mesmo cor-de-rosa. Sempre vestidos esvoaçantes e ternos de fino corte. Sempre naquele salão de poucas janelas, onde ela voava graciosamente e ele nadava acrobaticamente. O mal entendido continuou quando ela, inocentemente, aceitou um convite não tão inocente da parte dele. Mas foi um programa puro e simples, sem malícia e sem segundas intenções, apenas pelo prazer da presença. Mas uma presença que deixou as coisas ainda mais difíceis de se entender. Um misto de será? com um toque de que bom! e um leve aroma de vamos de novo?! E nenhum dos dois entendia...

"Ainda bem que entendi tudo errado, então..." foram palavras nunca ditas. Caladas em ambos os pensamentos que as formularam. Ele sorria. Ela não entendia. E ambos viviam. Intensa e naturalmente, como se cada dia respirado até o momento fosse apenas uma espera. E não se sabia como resolver aquele mal entendido. Não se buscava solução para aquele mal entendido. Ele, por si só, era o mal entendido mais bem acertado que se podia esperar. E visto que não há necessidade de cura quando não há males a serem resolvidos, só o que lhes resta é deixar o entendimento de lado e viver aquela realidade, tão surreal que até parecia verdade...

Porque há instintos...

Ela dormia. Profundamente. E ele ali, a observá-la. Acompanhava sua respiração, movimentos lentos e profundos, suaves. Inconscientemente, respirava no mesmo ritmo, enquanto desenhava aqueles traços finos, delicados e sutis em seu pensamento. Fixava em sua memória aquele rosto único, angelical, quasidivino. Seus olhos percorriam aquele corpo parcialmente coberto por uma manta e admirava aquelas curvas, tocando-as. Mentalmente. Não queria perturbar aquele sono quasiperfeito. Ocasionalmente, não resistia, e afastava aquela mecha de cabelo que insistia em cair sobre aquele rosto de feições artísticas. Um toque mais leve que um sopro de brisa no campo. E a observava, fixamente, continuamente. Quase que hipnotizado. Completamente delirante. E ali, cultuando aquela obra-prima divina, adormeceu, enfim.

Ela não dormia. Mantinha os olhos cerrados, mas estava desperta. Como se meditasse profundamente. Sua respiração, lenta e profunda, parecia elevar sua mente ao máximo da percepção. E todo seu corpo ia junto. Sabia que ele a observava. E gostava disso. Sentia todo seu corpo vibrando com o desejo que irradiava dele. Arrepiava-se quando sentia aquele dedo leve como uma pluma a tocar-lhe os cabelos. Quase era capaz de perceber aqueles olhos a percorrerem cada curva de seu corpo. Sentia e vibrava cada segundo como se fosse uma hora. Nunca antes uma noite fora tão surpreendente quanto aquela.

Oito horas da manhã. Do dia seguinte. Naquele aeroporto, um tanto quanto distante daquela cama, uma auxiliar de higiene lamenta sua árdua vida ao se deparar com toda aquela tinta vermelha misturada a mechas de cabelo desproporcionais, espalhando-se pelo banheiro feminino. Se chegasse apenas alguns minutos antes, veria uma ruiva desconhecida e irreconhecível deixando o recinto. Quase irreconhecível, na verdade. Pois quem olhasse em seus olhos a reconheceria imediatamente. Viúva negra era o apelido designado pela mídia declaradamente sensacionalista e também adotado pela mídia discretamente sensacionalista. Doze vítimas, até o momento. Isso é, doze vítimas atribuídas a ela, mas somente a própria sabia o real número de homens que entregaram suas vidas em seus braços. Literalmente. Em comum o fato de que todos partiram sorrindo. Era assim. Sentia nojo dos homens e seus sentimentos e atos carnais e superficiais. Procurava aquele que fosse diferente e, aqueles que não o eram, bem... não eram merecedores de tê-la como troféu. Agora, ainda estava confusa. Não entendia. O último, não fora igual. Mas também não sabia dizer se fora diferente. E, enquanto pensava e tentava entender, sorriu. Por baixo dos grandes óculos escuros, viu o próximo candidato a observá-la. E ali, naquele portão de embarque, enquanto ainda tentava entender o que era incapaz de explicar, observou o próximo candidato à diferença se aproximando, após receber aquele sorriso permissivo. E assim, tal e qual o caçador que se finge manso para atrair a caça, ela recebe aquele cortejo. Busca uma diferença, mas sabe que vai encontrar o mesmo. Somente aquele que não foi igual encontrou um espaço verdadeiro em seu pensamento. Diferente deste, que, após poucos minutos de conversa, já tem seu destino definido. Uma manchete, sensacionalista ou não. E ela lamenta. Sinceramente. Gostaria que fosse diferente. Mas, infelizmente, certos instintos são inevitáveis.

Dez horas. Da manhã daquele mesmo dia seguinte. Na sala que antecede a cama, entra a empregada. Garrafas de vinho e embalagens de chocolate. E um sorriso irônico. Já sabia que, naquela cama, encontraria uma jovem ex-donzela, seminua. Ou completamente nua. E, delicada porém definitivamente, era sua a tarefa do adeus. Gostava de seu patrão. Era bom e generoso para com ela. Não concordava com seu estilo de vida, mas não cabia a ela questionar a hierarquia superior. Dirige-se ao quarto, automaticamente, meditando e recolhendo o que encontra pelo caminho. E então, ao abrir a porta, pára, subitamente. Surpresa. Confusa. Numa caricaturesca cena onde seu queixo tocaria o chão se não estivesse preso por ligamentos. Quem dorme é o patrão. Numa cama obviamente desarrumada por dois corpos. Dorme, é apenas uma forma de descrever. Na verdade, ele parece... estático... mais que o normal. Parece... não respirar. Parece... Engasgo. Tosse. Respiração profunda. De ambos. Ele, despertanto. Ela, aliviada. Ele se vira e palpa a cama. Vazia. Ainda sente o perfume dela no travesseiro. Lamenta. Sinceramente. Infelizmente, alguns instintos são inevitáveis. Já tivera muitos corpos em sua cama, mas nunca o mesmo corpo por mais de uma noite. E ali, pela primeira vez, desejou novamente aquele corpo. Não pela carne, mas pelo conteúdo. Porque, felizmente, há sentimentos que superam até mesmo instintos inevitáveis. E aquele sentimento de plenitude, inédito, inexplicável, atingido somente com uma presença, sem corpo e sem contato, sem posse. Um toque de espírito, literalmente. Ansiava novamente por aquele toque, por aquela presença. Por aquele sentimento. Mas aquela entidade agora intangível se fora e, aos poucos, inconscientemente, ele permitia que o instinto reassumisse o controle. Longe dali, a dez mil pés de altitude, outro espírito se deixava dominar pelo instinto novamente. Mas levaria consigo para sempre aquele sentimento. Ele, no chão, nem mesmo imaginava que sua vida fora poupada ao dar àquela alma um sentimento de esperança. Esperança de que nem tudo era igual. Porque, ainda que existam instintos inevitáveis, há sentimentos que superam tudo.

Reviravolta

"...mas pode me chamar de reviravolta." Foi só o que ele entendeu. Abriu os olhos e levantou a cabeça. E não entendeu o que viu. Parecia uma silhueta de mulher, envolta em um manto quasibranco, com uma cor parecida com algodão cru, mas a suavidade e a delicadeza de um tecido élfico daqueles que só se imagina em histórias de fantasia. Mas não se viam feições. Não se viam detalhes. Era uma voz doce e encantadora, melodiosa, transmitia-lhe paz e segurança, mas não conseguia vislumbrar a boca de onde partia. Não conseguia ver os olhos que sabia estarem a observá-lo. Estava sentado em uma posição confortável e, desistindo de reconhecer aquela que se encontrava diante de seus olhos, desviou o olhar e buscou identificar o entorno. Foi então que se confundiu ainda mais. Não reconhecia aquele ambiente. Sequer havia algo para ser reconhecido. Não via móveis, nem paredes, nem pessoas. Não havia quadros ou pontos de referência. Havia apenas... árvores. Estranhamente, estava sentado em uma poltrona feita de árvores... Não de madeira cortada, mas de árvores, propriamente ditas. Identificou duas, e talvez uma terceira, e sentava-se confortavelmente sobre elas, todo o corpo apoiado, mais macia que qualquer colchão que já houvesse experimentado. Pareciam ter sido moldadas, torcidas, direcionadas para que assumissem aquela posição. Ergueu os olhos novamente e outra vez encarou aquela figura. Seus olhos estavam se habituando lentamente àquele ambiente e, aos poucos, via com um pouco mais de clareza. Mas ainda não via feições.

"Quem é você?" perguntou ele, tentando entender melhor o que lhe acontecia. "Meu nome é vida, embora alguns me chamem caminho, oportunidade, experiência, destino e muitos outros nomes. Mas hoje, você pode me chamar de reviravolta." E enquanto ele ouvia, e não compreendia, embora aquela figura não pudesse ser mais clara, forçava a memória e buscava as lembranças mais recentes. Há um tempo que parecia uma semana atrás, lembrava-se da internação. Pneumonia. Tudo tem uma primeira vez, ainda que seja aos sessenta e muitos anos. Fora internado, a pedido da médica que o atendeu na urgência daquele centro de referência, em um quarto com outros três colegas enfermos. Dois dias depois, segundo era capaz de calcular, lembrava-se de uma sensação densa, calafrios e tremores, algumas coisas que supostamente não deveria ver, muita tosse, dor no peito, falta de ar. Fora então encaminhado a um tratamento mais especializado em outro andar, onde passaria a receber atendimentos mais freqüentes e uma atenção mais intensiva. Melhorou, e bastante, até onde era capaz de recordar. Não havia mais delírios e a tosse, ainda que persistente, agora era uma aliada a limpar-lhe os pulmões. Mas a última recordação que levava registrada era de uma dispnéia súbita e intensa, como nunca sentira antes. A vista meio turva, mal conseguindo movimentar os braços, e o ar que parecia não ser suficiente. Chamou uma enfermeira, que chamou um médico, que chamou toda a equipe. E então... e então... não sabia dizer. "Foi isso então, eu morri." afirmou ele, falhando em formular uma pergunta. "Não. Pelo menos, ainda não" foi a resposta, direta e surpreendente. "Você ainda não morreu e nem vai morrer tão cedo, se souber aceitar o que lhe for pedido e o que lhe for oferecido." E então ele a encarou novamente. Não havia uma expressão facial que pudesse interpretar, mas, de alguma forma, sabia que ela falava sério. Sabia que não era uma promessa vã. Sabia que deveria ouvir.

"Mas eu já estou velho, não há nada que se possa querer de mim ou que eu possa esperar do mundo. Já vi tudo que poderia ter visto, já experimentei tudo que poderia ter experimentado. Sei que estou longe de conhecer tudo que há no mundo, mas tudo que me era possível viver, eu vivi" argumentou ele, sensato como nunca fora antes. "O que é o tempo, senão um sistema rudimentar de calcular as voltas que seu planeta dá em torno de uma estrela? O que é o tempo, senão uma série de cálculos e hipóteses e suposições que perdem toda sua validade quando uma força maior muda o eixo do astro onde vive? O que é o tempo, senão uma forma de discriminação discreta e aceita?" Silêncio, foi a única resposta que encontrou. "O passado é uma lembrança, muitas vezes contaminada pela parcialidade da memória. O futuro é uma esperança, muitas vezes deturpada pela ânsia do desejo. Só o que existe é o presente, em todos os mundos e em todos os planos. E a duração máxima que o presente pode ter, é o agora. Nem mais, nem menos, apenas isso. E não está em suas mãos determinar quanto é agora. Nem mesmo nas minhas. É algo tão grande que eu sequer sou capaz de lhe explicar em palavras inteligíveis. E hoje, eu estou aqui para lhe dizer que o seu agora ainda existe, e que pode continuar existindo por um prazo indeterminado, se você aceitar a nova realidade que lhe trago."

Estava incomodado. Muito incomodado. Não conseguia entender o que estava acontecendo. Não sabia onde estava. Não sabia quem era aquela ou o que ela esperava dele. Enquanto pensava nisso, ela se aproximou. Sentia-se assustado, mas, de alguma forma que não entendia e por algum motivo que não sabia, confiava que ela não lhe faria mal. "Veja" disse ela, enquanto aquelas mãos que mais pareciam fachos de luz tocavam sua testa. E então ele viu, diante de si, como se estivesse olhando uma teletela. Viu a si mesmo, deitado na segunda cama que ocupara no hospital. Que ainda ocupava, segundo a visão lhe informava. Sondas e agulhas introduzidas onde antes havia nada, soníferos injetados regularmente em suas veias, e seu corpo se comportando como se fosse recheado de estopa e serragem. Via as pessoas lhe moverem braços e pernas, via a si próprio sendo trazido de lá pra cá e de volta pra lá, deitado de lado, de frente, seus braços se movendo pelas mãos de outrem, até mesmo sua respiração parecia ter sido terceirizada. E não sentia nada disso. Não sentia mãos em sua pele, não sentia tubos em sua boca, não sentia nada do que via. E se antes não entendia, agora menos ainda. "Sou eu?" foram as duas únicas palavras que foi capaz de formular. "É o seu corpo, se é isso que quer dizer. Você está aqui, comigo" foi a resposta, tão impactante quanto um balde de gelo numa criança dormindo. "E o que isso tudo significa?" tomou coragem para perguntar. "Significa que sua vida, como você conhecia, está por um fio. Literalmente. Nada será como antes, tenha certeza disso. Se aceitar as condições que lhe proponho, voltará a assumir o controle do seu corpo, mas tudo estará mudado. Se não, daqui partirá em direção ao seu merecido lugar." "E quais são as condições?" perguntou, porque, agora, aquilo lhe interessava. Estava negociando e, isso, sabia fazer muito bem.

"Humildade" foi a resposta. "Como assim?" perguntou novamente, entendendo cada vez menos. "Foste um grande patriarca, no seu mundo. Agora, estou a lhe oferecer a oportunidade de ser um patriarca ainda maior, em ambos os mundos. Terá a oportunidade de crescer a si mesmo, fortalecendo sua humildade e sua resignação, ao mesmo tempo em que dará à sua família a oportunidade de crescer junto, ensinando-lhes o valor do amor e do trabalho." "Mas isso eu já fiz. Todos trabalham, todos nos amamos. Temos problemas, logicamente, toda família os tem, mas somos uma boa família, íntegra, honesta e unida. Como posso ensinar mais?" retrucou ele. "Exercitando a humildade. Sua família é realmente um exemplo, e exatamente por isso está recebendo a oportunidade de concluir seu crescimento nesse mundo com a experiência máxima que a Vontade Suprema pode lhos oferecer, o amor, o verdadeiro amor, a resignação, a aceitação, a doação" disse-lhe a vida. "E como serei capaz de proporcionar tudo isso a eles?" "Confiando. E aceitando." "Mas e" "Não existe mas", interrompeu-lhe bruscamente a entidade luminosa, impedindo que concluísse "isso não é uma barganha, isso é uma escolha. Confie e aceite, e retornará para concluir seu trabalho perante os seus. Caso contrário, será levado a outros caminhos para que possa atingir o mesmo fim." E então ele enfim entendeu. Não confiava, pelo menos não plenamente. Mas, por algum motivo, aceitou. Pelo apego, pelo vício, pela vontade de preservar aquela que chamava de vida, aceitou. E quando encarou novamente a reviravolta, não foi capaz de formular uma resposta. Via-a diante de si, mas agora estava em outro ambiente. Olhou em volta e reconheceu a unidade daquele hospital onde seu corpo recebia tratamento. "Ele acordou, que bom" foi o que ouviu, dessa vez vindo de uma boca que se movia e de um rosto que reconheceu como um dos profissionais daquela instituição. "Vamos tirar isso da sua boca agora" foi a frase seguinte. E então, com uma delicadeza brutal, algo foi arrancado de si. Sua garganta arranhou, seu estômago nauseou e seus olhos lacrimejaram, mas aquilo foi arrancado de si. Respirou fundo e sentiu novamente o ar fresco a lhe inflar o peito, ainda que com alguma dificuldade. Aquela que lhe fizera a proposta ainda estava ali, luminosa e sem feições, tal e qual a conhecera. Ainda não entendia tudo que acontecia, mas sabia que estava vivo, e então relaxou e dormiu.

Acordou quando sua família o tocou. Sua neta caçula e a mãe dela, a filha que ainda vivia nos arredores. Acariciaram-lhe os cabelos gentilmente, beijaram-lhe o rosto, entre lágrimas de ambos os três. Ele tentou falar, mas sua boca se moveu afônica. Forçou novamente, mas não foi capaz de formular sons coordenados. "Descanse, papai, o médico logo vai vir e vai explicar o que aconteceu" confortou-lhe a filha. Minutos depois, conforme prometido, o médico se aproxima do leito e aborda delicadamente a família em momento íntimo. "Olá. Como estão vendo, ele melhorou bastante. Conseguimos extubá-lo essa manhã e até agora, tudo corre bem. Ainda está muito fraco e vai precisar de algum tempo pra se recuperar, mas respira sem dificuldade e já não depende de tantos medicamentos. Aos poucos, vamos tirando ainda mais e logo ele vai para um quarto de enfermaria." "E o derrame?" pergunta a neta. "Bom, essa é parte mais delicada... Ainda não sabemos toda a extensão da lesão no cérebro, por isso é difícil dizer. Ele parece entender tudo que falamos, mas não consegue falar, ficou afásico, e ainda não sabemos exatamente como os movimentos de seu corpo foram afetados, temos que aguardar a evolução para que possamos afirmar com certeza. Com o tratamento adequado podemos recuperar muita coisa, mas é impossível dizer exatamente o que vai acontecer." E foi nessa hora que ele parou de ouvir. Chorava, silenciosa e discretamente. Olhou para o alto, como quem pede socorro. Não era isso que desejava, não era essa sua vida. E enquanto buscava entender o que acontecera, percebeu que a reviravolta ainda estava ali, a observá-lo. E então, ouviu sua voz uma última vez "Humildade e resignação, foi o que você escolheu aprender. Confie naqueles que ama, e permita-lhes que aprendam o valor do amor, da doação e do trabalho. Confie naquele que me enviou", enquanto sua imagem se tornava cada vez mais sutil até desaparecer por completo.

Telefonopatia

"Você é um menino de luz", disse-lhe o avô octagenário. E aquela criança de apenas poucos anos ficou a encará-lo, tentando entender o que aquilo significava. "Como assim, vovô? O que é ser um menino de luz?" E o velho homem sorriu. Sabia que ainda era cedo. Sabia que ele não entenderia plentamente aquilo que iria ouvir. Sabia que ele sequer lembraria de tudo que lhe seria dito. Mas, acima de tudo, sabia que seu tempo era pouco e que deveria fazer o possível por aquela criança.

"Significa que você tem um dom, uma coisa que te torna especial" foi a resposta mais simples que conseguiu formular. "Quer dizer que eu sou melhor que os outros?" E o avô riu-se ao observar a expressão de interrogação e exclamação do pequeno. "Eu não quero ser melhor que ninguém, vovô. Outro dia, lá na escola, ouvi um amigo contando que o irmão dele apanhou de outro menino só porque tirou uma nota boa. Não quero apanhar!" E a risada evoluiu para uma gostosa gargalhada, daquelas que só a ingenuidade de uma criança é capaz de provocar naqueles que já se esqueceram da simplicidade do mundo. Mas aquele respeitável senhor se controlou ao ver a expressão do garoto começar a mudar. "Não, meu filho, você não vai ser melhor que ninguém, não se preocupe. Vai ser apenas... diferente, digamos. Você vai ver coisas que os outros não vêem", explicou. "Vou ver fantasmas, vovô?!" perguntou-lhe um par de olhos esbugalhados. "Não, querido, não é bem assim. Na verdade, você vai ser capaz de ver o coração das pessoas", retrucou o sábio idoso, contendo outro acesso de gargalhadas. E então, um sorriso de exclamação pergunta "Então eu vou ter visão de raio-x, igual super-herói?!" Sem conseguir se conter, começou a responder ainda rindo "Quase isso, pequeno. Você não vai ter visão de raio-x pra ver através das paredes, mas vai ter um jeito diferente de ver, vai entender as pessoas, sentir o que elas sentem e, às vezes, até ouvir seus pensamentos." Voltando à face de interrogação, a criança pergunta "Vou ter telefonopatia?"

"É mais ou menos isso, meu neto. É um pouco mais, na verdade, mas ainda é muito cedo pra você entender tudo. Mas você até já tem um pouco, quer ver? Olhe nos meus olhos e tente descobrir o que estou pensando." E então os dois extremos se encararam. E o pequeno, subitamente, parte em direção ao corredor e alcança aquele velho relógio e, ao abrir o fundo falso dentro da rara peça, exclama inocentemente "Você mudou o esconderijo dos chocolates!" "Como você sabia que eu escondia aí?" perguntou-lhe o ancião, com um sorriso compreensivo nos lábios. E então, olhos tímidos e zigomas vermelhos, falando mais para si que para outrem, o pequeno diz "Eu... eu... sonhei que o senhor mostrava pra mim. Daí, quando acordei, vim ver se era verdade e tinha um monte de chocolate aqui... Todo dia eu como um, mas juro que é um só por dia!" Mudando de compreensão para satisfação, o avô questiona "E como você sabia que eu tinha mudado?" "Não sei... eu sabia, só isso" responde o neto com expressão confusa. E então, forçando uma seriedade que o momento não favorecia, o avô pergunta novamente "E você consegue descobrir onde eu escondi agora?" E o menino, encarando-o com seriedade, repentinamente ilumina o próprio rosto com um sorriso de satisfação e sai correndo em busca daquele segredo compartilhado no silêncio.

E o velho sorri, satisfeito. Satisfeito consigo mesmo. Mais ainda com seu pequeno sucessor. Conseguira cumprir seu primeiro objetivo, despertar uma curiosidade, um instinto, uma intuição. Oferecera ainda um pouco de esclarecimento que, aos poucos, amadureceria, juntamente com o portador daquela luz. Sentia-se feliz por poder orientar esse potencial em direção ao caminho que vira em seus sonhos. Sentia-se feliz por poder compartilhar aquele dom com alguém que lhe era tão querido. Sabia que seu tempo era pouco, mas agora tinha certeza que era também suficiente. Suficiente para ensinar àquela luz que seu caminho era o amor. Suficiente para evitar que aquele iluminado cometesse os erros que ele próprio cometera, permitindo-lhe procurar novos erros. E então, levantou-se e dirigiu-se à porta de saída. Precisava comprar alguns livros que lhes seriam úteis. E mais chocolate também...

O sapo

Era uma vez um sapo. Um sapo como qualquer outro sapo. Desses ordinários que encontramos por aí, cheio de verrugas, verde e gosmento. Mas, embora comum, este sapo era diferente dos outros. Tinha algo que o tornava único, especial. Era um sapo atropelado. Mas até mesmo para um sapo atropelado, ele fugia do normal. Não era um sapo esborrachado, completamente destituído de forma por um pneu de carro. Fora atropelado por uma bicicleta. Ou melhor, por uma pequena bicicleta. Mais especificamente, por uma carruagem, de uma pequena cinderela, que aparentava seis ou sete anos de idade e corria por ali, naquele momento, passeando no sítio de sua família. Era um princesa e, no momento em que atropelara o sapo, fugia apressada de um baile antes que sua carruagem virasse abóbora novamente. Até sentir uma lombada sob as rodas de sua bicicleta. Quase caiu e não entendeu nada, pois passara ali havia poucos minutos, a caminho do baile, e não havia lombada alguma. Um breve pausa na fantasia e a pequena menina volta para investigar. E, retomando a fantasia, deixa cinderela partir e fica a fada madrinha. Tomando por vara de condão o graveto mais retilíneo ao alcance da mão, toca o sapo uma. Duas. Três vezes. Na quarta, ele salta antes que a vara o toque, deixando pra trás um rastro de pó de fada. E antes que pudesse comemorar, uma mão a traz de volta à realidade. Pela orelha. Pobre criança, é uma mãe preocupada, apenas, que se esforça em ser boa, segundo seu próprio conceito. Inconcebível sua pequena menina brincando com um sapo morto no meio de uma estrada de terra. Bicicleta em uma mão, punho da menina na outra, e a jovem senhora segue de volta em direção à casa. Desejosa de continuar a fantasia iniciada, porém mais desejosa ainda de não levar uma boa medida sócio-educativa, a ex-fada segue conduzida. Antes, porém, olha novamente em direção à lombada, e vê um sapo morto, com uma marca de pneu de cerca de cinco centímetros de largura dividindo-o ao meio. Exatamente ao meio. Ao seu lado, um rastro de pó de fada que segue em direção à mata.

"Minha filha que perigo. Você podia ficar doente. Onde já se viu menina ficar brincando com sapo morto. Não, não tem discussão. Já pro seu quarto e fique lá até amanhã. E vai ficar até depois de amanhã sem a bicicleta. Um perigo, sair andando sozinha. E se fosse uma cobra?!" E a pobre criança se retira, escutando sem reagir, ainda tentando entender um sapo morto e um rastro de pó de fada. E, no castigo, só lhe resta dormir. E sonhar. Estranhamente, com um sapo. Parecidíssimo com aquele atropelado, mas diferente. Um tanto quanto...humano, talvez. No mínimo, bípede. E falante. Muito falante. E galante também, como todo sapo há de ser sob a carapuça de nojeira que o reveste. Aguarda a menina sentado sobre uma pedra, perna direita cruzada sobre a esquerda e um chapéu panamá em uma das mãos. Ou patas, não sei explicar. É um tanto quanto confuso. Ao vê-la, uma reverência e um chapéu que quase toca o chão, e um sorriso digno de sapo. Estranhamente, assim como não tivera nojo da carcaça grotesca e sem vida, sente-se atraída por essa bela entidade humanóide e corre em sua direção, recebida afetuosamente por um abraço caloroso. Uma vez separados, o sapo começa falando. Agradece o favor que lhe foi prestado. No momento em que o atingira, fugia de uma cobra caçadora. Aguardava-lhe uma morte lenta e sofrida. Dolorosa. Não que a cobra fosse má, mas era necessário e ele sabia disso. Mesmo assim, fugia, pois isso também era necessário e a cobra também o sabia. E ela, inocente e inconsciente, oferecera-lhe uma oportunidade de libertação. "Mas eu te matei", retruca ela. "Matou sim, mas libertou também, acima de tudo. Saiba que sequer senti dor, tão rápido foi. Uma leve sonolência e, estranhamente, de repente sentia-me leve e brilhante e saí a saltitar. Não via mais a cobra, imagino que sua presença a tenha afugentado. E estranhamente, tive vontade de voltar para lhe agradecer, e digo estranhamente, porque até então nunca tinho tido vontade. Apenas supria necessidades. E foi então que entendi." E então, ele explicou.

Levou a menina a passear. Mostrava-lhe um mundo...estranho...diferente. As cores vibravam e cantavam. Os animais falavam e gesticulavam. As árvores bailavam. E os poucos homens presentes harmonizavam. E o galante animal explanava que aquele era o paraíso. Um deles. Ali, onde se encontrava, podia ser feliz e se dedicar às suas composições coaxantes. Podia até mesmo executá-las sem ser importunado. E tinha oportunidade de transmiti-las aos seus amigos sapos que ainda eram verruguentos, embora nem sempre conseguisse fazê-lo com a fidelidade que desejava. E a harmonia reinava num ambiente de diversidade e celebração. Explicou-lhe, também, que fora seu toque mágico que o trouxera de volta à vida. A esta vida. Mais que seu toque, fora sua fé e sua imaginação, sua imagem em ação, sua vontade de dar vida que permitira que um pobre gosmento e verde anfíbio se levantasse como um imponente e nobre bípede coaxante. E então, começou a lhe explicar o poder das imagens ativas. O poder da imaginação. O poder da criação. Disse-lhe que cada ser daquele pequeno paraíso fora criado por uma mente. Alguns dependiam de terceiros, outros eram criadores de si próprios, verdadeiros avatares do mundo real enviados para um mundo ainda mais real. E explicou ainda sobre a vida e a morte. Sobre o tempo de nascer e retornar. Sobre a criação e a destruição. Sobre a vida que existia acima da vida. E então ela bailou. Cantou. Compôs. Viveu. Entendeu. Criou. Conheceu. E assim foi até que começou a se sentir cansada. Recostada em uma árvore que lhe acariciava os cabelos, fechou os olhos e cochilou brevemente.

Abriu-os novamente quando o sol aqueceu seus pés. Algum tempo até se acostumar à luz e então reconheceu-se dentro do quarto que lhe era designado naquela casa de retiro familiar. Sentou-se na cama, sorridente, um sorriso amplo prestes a se desfazer, quando começasse a perceber que sonhara e fantasiara. Mas antes que o sorriso começasse a esmorecer, um rastro brilhante chamou sua atenção. Pó de fada. Um rastro que levava o pé da cama até a janela. No chão, onde começava o rastro, um chapéu panamá. Na janela, um graveto. O mais retilíneo ao alcance da mão. E o sorriso, longe de se apagar, inflamou como uma estrela que nasce. Digno de um sapo. Tomando o chapéu em uma mão e a vara mágica em outra, desceu escada abaixo. E uma mãe, que, juro, fazia o possível para ser a melhor, se esforçava por manter uma postura firme e ensaiava um não disciplinador o suficiente para manter a privação da bicicleta, ficou sem entender quando uma menina sorridente passou por ela correndo.

A menina tudo tocava. E onde seu graveto quase retilíneo tocava nasciam flores. Sapos gosmentos. Sapos bailantes. Cães uivantes. Gatos larápios. Homens baixotes. Árvores centenárias. E quando, de tempos em tempos, voltava o rosto em direção ao caminho já percorrido, via claramente toda sua criação. Tão claramente quanto via sua mãe com uma interrogação maior que o sorriso de um sapo. E então, sorriu-lhe, e voltou ao seu trabalho de criação. Pouco lhe importava que nem todos pudessem ver seu mundo. Ele existia e não dependia de ninguém para isso, apenas dela. Aprendera que é assim que começam as grandes criações. E a mãe, pobre mãe, ficou a observar a filha se afastar, com um não pendurado na ponta da língua, quase caindo, inutilizado. Ficou pensando que deveria ter jogado fora aquele graveto esquisito, sem recordar a indelicadeza com que o retirara da mão da pequena na véspera. Por um breve momento, viu um pó brilhante e gracioso se desprender da ponta do graveto. Coçou os olhos e repetiu para si mesma "Pare de fantasiar, você já não é mais criança." E não viu mais pó algum. O que ficou sem entender, e que provavelmente não acreditaria quando ouvisse a explicação da filha, era onde raios ela arrumara aquele chapéu que levava na mão...

Lá fora, a chuva...

Lá fora, a chuva chora. Chora de saudade, de distância. Chora de dor e sofrimento. Chora de alegria e alívio, chora e comemora. E a chuva, lá fora, também molha. Molha o saudoso, o triste e o desesperado. Molha o alegre e o festivo. Molha e olha e chora por tudo e por todos. E o frio, esfria. Esfria os ânimos e as vontades. Esfria as almas e os corações. Esfria os ânimos e as dores. Esfria as vontades e os desejos, corpos e pensamentos. É como se o mundo todo fosse outro, como se tudo estivesse fora do lugar. Ou talvez é como se o mundo ainda fosse o mesmo, mas os olhos que o percebem mudaram, já não fossem mais os mesmos. Já não sei mais dizer. Só o que sei é que a chuva chora. E a chuva molha. E o frio esfria. Mas as coisas já não são como são. Algo renasce e recomeça e aqui dentro, o frio não chega. É uma chama que se acende e aquece o calor e ilumina a luz. E é uma chama fraca, tímida, frágil e delicada. E violeta. E violenta. Porque é uma chama. E o fogo que aquece é o fogo que destrói, são chamas que queimam e ardem e devastam. Mas é das cinzas que a fênix renasce. E o que é um novo mundo, senão uma pilha de tijolos sobre as ruínas do velho?!... Algo muda. Não sei exatamente como. Nem onde. Nem como. Mas muda. E as coisas nunca mais serão como foram. E as coisas nunca mais terão o que tiveram. E as pessoas nunca mais viverão como viveram. E o mundo não será mais o mesmo. Porque o mundo já não é mais o mesmo. Abra os olhos e veja. Abra o coração e saiba. O que os olhos não vêem o coração diz em alto e bom tom, grita e escancara e não esconde. Porque o que o coração sabe, os olhos demonstram. Impossível é esconder sua alma, sua essência, sua verdade. Olhos nos olhos trespassam qualquer muralha de carne e a verdadeira visão independe da retina. Duas almas que conversam entre si não podem se esconder. E a mudança do mundo vem da alma. Vem de dentro. Vem da chama. Dessa chama que nenhuma chuva molha, que nenhum frio esfria. Dessa chama que faz a chuva parar de chorar e transforma a depressão em ascensão. Dessa chama que queima, arde e destrói, deixando pra trás as cinzas que fertilizam o solo novo e a esperança da vida que recomeça. Algo muda aqui dentro. Algo já mudou aqui dentro. Feche os olhos e veja. Abra o coração e entenda. Deixe a chama chamar.

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Pois é, é isso mesmo. Nem sempre eu entendo o que escrevo, mas sempre sei que tem algo a ser entendido aí. Outro dia, um Anjo, desses que literalmente salvam vidas, me disse que uma das minhas postagens tinha "sido feita pra ela" e, embora eu dissesse que escrevera pra mim mesmo, ela ainda insistiu em dizer que não, que era pra ela. Bom, talvez tenha sido mesmo. Exatamente pra ela. E pra mim também. E pra quantas pessoas tenham vestido aquela carapuça. E tantas outras carapuças que tenho tricotado há alguns anos. O que pouca gente percebe é o tamanho da semelhança que há entre nós. Quando olhamos pro próprio umbigo, só o que vemos são nossas cracas e nossas sujeiras e nossas necessidades e só o que buscamos é nossa limpeza e nosso suprimento. Mas, se confiarmos na divindade que rege a existência do universo e levantarmos a cabeça apenas pra uma rápida olhada pro próximo, perceberemos que ele também olha o próprio umbigo. E, num esforço inútil, tenta limpar suas cracas e satisfazer suas necessidades. Que são exatamente as mesmas que nós enfrentamos. Levante a cabeça e abra os olhos. Olhe ao seu redor. Perceba seu irmão, logo ao lado. Entenderá que ele é você e você é ele e poderá facilmente se confundir com ele, até que aprenda a perceber a verdadeira individualidade e compreender a unicidade da existência e da personalidade e saiba se construir como entidade única. A vida em comunidade permite que nos vejamos refletidos nas outras pessoas, como se olhasse pra mim mesmo mas com outro rosto e outro corpo e até mesmo outro gênero. E então compreendemos a semelhança entre todos nós e, a partir daí, nos tornamos capazes de distinguir verdadeiramente a exclusividade e construir a própria existência. Chame isso de "encontrar a sua verdade". Ela está em você, mas não é olhando pra dentro que a encontrará. É olhando pra fora, para o próximo, buscando aprender o que é de todos, o que é dele e o que é meu, para então, lentamente, ser capaz de dar vazão a sua essência e deixar o divino agir através de suas mãos. Porque é isso que somos, ferramentas divinas buscando o bem próprio e o bem próximo. Buscando o bem de todos. Porque é o conjunto de individualidades que forma a humanidade, e a convivência em harmonia é o melhor meio de lutar contra cânceres que nascem quando a célula se revolta contra o corpo. Ame. A si mesmo, primeiro, ao próximo, depois. Mas ame, de verdade, ame como quem quer bem, como quem deseja felicidade, como quem constrói vida, como quem é livre e respeita a liberdade. Você pode não acreditar, mas o amor é tão simples quanto parece.

E assim como o ano começa depois do carnaval, o segundo semestre começa em agosto. É o mesmo ano, recomeçando. Muitas águas rolaram em março e em setembro chove, sim. E o ano recomeça...

Faz sentido?

Eram ao todo cinco pessoas que não se conheciam. Viviam no mesmo prédio e todas colecionavam fotos de suas famílias e outras de suas viagens, embora duas dessas pessoas tivessem hobbies complementares: uma delas colecionava fotos de cães e a outra, de famosos. Foram muitos anos que viveram no mesmo ambiente, sem se encontrar, embora tenham sido necessários somente alguns dias para que finalmente se conhecessem, numa reunião de condomínio. Mas foi aos poucos que criaram a intimidade. Vou esclarecer, para que não me interpretem mal: um deles estava se desapegando de seu passado, fugindo, embora preferisse estar onde estava, não era capaz de deixar ao Divino o cuidado de seu futuro. Do seu lado, sentaram-se outras duas. As duas se conheciam, tinham cinco amigos em comum e foram apresentadas uma à outra por intermédio destes. Conheceram o primeiro porque foram retiradas da reunião, quando começaram uma discussão bem cabida porém pouco aceita e ele, ao apoiar as outras duas, foi obrigado a se retirar também. Saíram, revoltos, mas os outros dois personagens ainda não tinham se tocado do que acontecia. Não sei exatamente o que se passava entre elas, mas a conversa paralela seguia animada. Mas, estranho destino, esse que aponto agora é chaveiro, e coleciona fotos de cães de seus clientes. Ainda não havia terminado a discussão quando os dois últimos retornaram suas consciências ao recinto e, ao se inteirar do assunto, compraram a briga e decidiram se retirar também, levando consigo todos que conseguiram afastar daquela demagogia estranha que a síndica professava. Ele, estranhamente, levou um pouco de mim. E também ela, dada a ênfase de seu discurso. Encontraram os outros três cerca de uma hora, todos ainda na porta da reunião, maldizendo os asseclas da tirania. Da maledicência, a conversação se desviou para a foto de uma toalha, que o primeiro deles obtivera durante uma viagem. As duas segundas comentaram, então, a foto de um xampu em uma posição levemente insinuante que um de seus amigos em comum efetuara acidentalmente no mercado. Os dois terceiros, rindo-se e compartilhando o motivo com o primeiro e as segundas, comentaram a captura de um condicionador em queda ao fundo de uma foto de um dos clientes daquele cuja profissão foi especificada. "Que ironia", pensava um deles, ao compreender que só o que precisam é um do outro, e poucos humanos percebem isso. A discussão em torno de um destino poderia ser facilitada imensamente, se as pessoas esquecessem as diferenças e buscassem as semelhanças.

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Faz sentido?

A difícil lição do Amor

Eram ele e ela. Há muito tempo que iam e vinham nesse amor conturbado, doentio, possessivo. Muitas vidas tentaram e muitas vidas falharam. Até que resolveram tentar diferente, um amor à distância dessa vez. Um amor impossível que os obrigaria a exercitar o desapego. Mais que isso, esse amor libertador abriria o caminho para que seus filhos concretizassem a união de dois inimigos.


E assim nasceram, ele Romeu, ela Julieta. Deveriam amar-se à distância, encontrando-se em sonhos, admirando-se na vigília. Cultivados nesse amor impossível, pavimentariam o caminho para que seus descendentes superassem as barreiras impostas por gerações de ódio. Era assim que deveria ser. Era assim que teria sido, não tivessem caído em tentação novamente, cedendo às suas impulsividades da imperfeição. Cegos nesse doentio amor, construíram a própria ruína, encerrando prematuramente essa nova oportunidade, cada qual algoz de si mesmo. Ele, pelo sabor amargo do veneno. Ela, pela dor lancinante do punhal. E assim atingem o outro lado. Semi-inconscientes ainda, sem entender o que lhes passa e ainda alheios à magnitude do crime cometido.

Ele, suicida e assassino, é assediado pelas suas vítimas, torturado por almas amarguradas que lhe atormentam a consciência e lhe sugam a energia vital ainda presente em suas ligações fluídicas, rotas, sangrentas. Sofre ainda com a queimação em suas vísceras, o ardor do veneno que lhe corrói as entranhas. Ouve uma súplica, uma voz que lhe evoca a presença, distante, angustiada, mas não lhe identifica a presença, incapaz de localizá-la. E chama seu nome, implorando seu toque, clamando por socorro.

Ela, imprudente e suicida, sofre a tormenta da própria consciência. Sente, ainda, os efeitos do falso veneno, mãos e pés, braços e pernas dormentes, vertigens, prestes a perder a consciência a qualquer momento. O que lhe mantém a vigília é aquela dor lancinante no peito, a mesma lâmina fincada em seu coração a lhe dilacerar toda a esperança. Chama seu nome, espera seu socorro, enquanto ouve uma voz que parece a dele chamando-a também, suplicante. Mas ao seu redor, nada vê além de outras damas caídas, dormentes ou gementes, algumas sangram, outras sequer parecem viver.

Mas todo sofrimento tem cura e, ela primeiro, toma ciência do erro cometido e clama por misericórdia. Em sua sonolência, parece sentir bandagens envolvendo seu corpo, antes de ser elevada e acomodada em algo que lhe parece uma carruagem. Sonhos turbulentos agitam seu sono, um baile, um rosto enfumaçado, imagens embaçadas que vêm e vão. Quando finalmente desperta, está em uma maca e, ao seu redor, muitas outras similares parecem conter outras inconsciências. Levanta-se e dói-lhe o peito. Por baixo de uma camisola que não se lembra de ter vestido, sente bandagens recém-colocadas sobre uma dor funda e antiga. Um rosto desconhecido se aproxima "Bem vinda! Que bom que despertou. Há dias estamos aguardando." e lhe oferece um copo d'água. Só então percebe o tamanho de sua sede e sorve toda aquela água em poucos goles, devolvendo o copo e suplicando mais com o olhar. Não sabe onde está, não sabe o que se passa nem o que se passou. Sente-se confusa, com vagas lembranças daqueles sonhos, incapaz de discernir o real do onírico. "Não se preocupe - responde-lhe o rosto desconhecido, como se ouvisse suas súplicas em pensamento -, você está entre amigos. Meu nome é Clara e estive cuidando de você durante os dias em que esteve dormindo. Tome mais um gole de água. Consegue se sentar? Ótimo! Agora que acordou, não precisa mais ficar aqui. Vou levá-la até um quarto, onde poderá ficar mais à vontade." e, a um sinal seu, outra colaboradora sorridente aproximou-se, trazendo uma cadeira com rodas. Ambas auxiliaram-na a se transferir e, em seguida, Clara a conduziu até um quarto, pequeno mas aconchegante, com um catre pequeno coberto por lençol alvo e uma poltrona, um jarro de água e uma ampla janela com vista para imenso jardim florido.

Os dias passam naquele pequeno cômodo. Reaprende a falar com as orações executadas na companhia da dedicada Clara. Seu corpo se fortalece, já não necessita de auxílio para dirigir-se à poltrona e, sempre acompanhada, as excursões ao jardim lhe revigoram o ânimo. Até mesmo a dor parece diminuir diante de tamanho zelo e beleza. Só o que ainda lhe atormenta são as lembranças. A ausência delas, na verdade. Não se recorda do próprio nome, não sabe onde está nem de onde vem. "O esquecimento, às vezes, é uma benção!" diz-lhe Clara, ocasionalmente. Certo dia, Clara adentra o quarto acompanhada de respeitável senhor, com expressão séria porém carinhosa. Clarêncio, após apresentação adequada, identifica-se como médico, discute aquela ferida em seu peito, que ainda lhe dificulta a movimentação, e diz que agora se inicia nova fase de tratamento para a cura daquele mal. Aliviada, recebe de suas mãos um cálice com líquido rosado, de sabor agradável, e antes que termine de agradecer, já está profundamente adormecida.

Ele, por sua vez, demorou mais. Luta contra a corrosão em seu interior e confronta suas vítimas, agora algozes, à procura de seu amor perdido. Cego de ódio, dor e paixão, não vê à sua volta as presenças angélicas que chamam seu nome com promessas de alívio e recuperação. Segue por dias incontáveis naquela condição, até que finalmente, esgotado há muito, cansado como nunca antes, cai de joelhos e chora, copiosamente. Arrepende-se e clama por perdão, finalmente tornando-se capaz de receber o auxílio oferecido. Não vê, mas sente, e aquele toque em sua fronte parece renovar-lhe a esperança, acalmar-lhe os pensamentos, aliviar-lhe as dores. Adormece, profundamente, totalmente inconsciente.

Adormecidos, ambos são trazidos de volta ao mundo, sem saber quantos séculos terrenos haviam se passado. Seus amigos, que há tantas gerações intercedem pelo crescimento daquelas almas sofridas, preparam-lhes nova oportunidade e agora trabalham, incansavelmente, no preparo daquela que seria a redenção dos amantes. Levados para longe daquele terreno que lhes era familiar, são conduzidos a ambiente amigo porém renovado, preparado por seus irmãos para recebê-los. Duas mães, duas gestações.

Ele nasce primeiro e chora, convulsivamente, um choro que não cessa com o passar dos dias. "Uma mal formação congênita do aparelho gastrintestinal" diz o médico à mãe, após várias tentativas de descobrir o que se passa com aquela criança que parecia tão saudável. Internado e submetido a cirurgia, acomodado naquela unidade pediátrica humanizada, com a mãe ao lado incansavelmente, alimentando-o e acalentando-o. Ela nasce depois, uma gravidez complicada e sofrida também para a mãe, infelizmente falecida no parto. O pai, ressentido em sua imperfeição, não entende a missão assumida pela companheira e é incapaz de amar aquela criança a quem atribui o assassínio de sua amada. Os médicos e enfermeiras lamentam pela criança e especulam sobre seu futuro, até que um deles, após investigar a causa daquela estranha fraqueza de uma criança saudável, encontra aquela anomalia cardíaca tão rara. Mais lamentos, cobrindo um sorriso disfarçado naquela instituição de ensino, diante da possibilidade do tratamento experimental. É admitida naquela unidade pediátrica humanizada, tratada, abandonada e sozinha. E a mãe dele, uma daquelas que há tanto tempo constróem a redenção daquelas almas, assume a outra parte de seu compromisso e divide seu alimento sagrado entre um e outro.

E assim, no caminho da dor e do sofrimento, encontrarão a redenção. Uma existência breve, rápida e difícil. Viverão tempo suficiente para se conhecer, mas não para compreender o que é aquela sensação de troca de olhares. Além do tabu da infância, serão criados como irmãos e se amarão como tal, entre as grades de dois leitos. No entanto, ao retomarem suas consciências, suas almas compreenderiam a verdadeira lição, de tão difícil aprendizado. Levariam para sempre aquele verdadeiro amor, fraterno e libertador, e tendo ele por base, construíriam grandes obras e executariam grandes feitos.

Sozinho

Ele aparentava cerca de 70 anos de idade. Morava naquele asilo que fica logo ali, dobrando a esquina. Tinha sempre um sorriso no rosto e uma expressão leve e acolhedora. Diferente dos outros, trazidos por filhos, netos, sobrinhos, às vezes até por irmãos, chegara até ali sozinho. Viera de táxi, carregando as próprias malas. Ou melhor, a própria mala, já que era um volume só, e tinha quase mais livros que roupas. Não se sabia qual sua fonte de renda, mas pagava ele mesmo a mensalidade da instituição, mês a mês, sem atraso. E ainda recebia, ocasionalmente, algumas compras feitas pela internet. No seu cadastro, apenas um contato de emergência, um sobrinho em outra cidade, um tanto quanto longe.


E aquele era um dia um pouco atípico, que acontecia ocasionalmente, mas infelizmente não era rotina. Era uma terça-feira ensolarada, com escassas nuvens brancas, e um grupo de jovens escolares visitava a instituição, de acordo com a filosofia cristã de caridade daquela renomada escola. Não era a primeira vez que observava aqueles jovens. Ano a ano, os grupos se alteravam e surgiam novos rostos que pareciam cada vez mais jovens, mais inexperientes e, às vezes, mais assustados. Era interessante observar um certo padrão que se repetia: a primeira visita era sempre meio devagar, tímida. As crianças não sabiam o que fazer nem como abordar os residentes e, em geral, eram eles que começavam o trabalho. Os mais lúcidos, num primeiro momento, se aproximavam devagar e acolhiam os pequenos, com pequenas conversas e breves histórias. Quando os jovens se sentiam mais à vontade, os idosos então os levavam a passear, apresentavam os menos lúcidos e alongavam as histórias. Lá pela terceira ou quarta visita, o grupo já estava familiarizado e os escolares já chegavam procurando seus favoritos, aqueles com quem tinham mais intimidade, e traziam atividades diferentes, como pequenas apresentações de teatro, uma refeição diferenciada, brincadeiras adaptadas às limitações dos velhinhos.

Há quatro anos lá, era o quarto grupo que observava. Tinha o hábito de observar, de ficar meio distante, apenas assistindo e acompanhando. Participava de algumas atividades, de outras escapava à francesa. Algumas vezes fora abordado, mas a conversa nunca ia além de algumas amenidades do dia-a-dia ou pequenas incursões no passado, sempre desinteressadas, como quem oferece um pequeno agrado a um necessitado, geralmente falando pelos cotovelos. Ficava meio incomodado com esse tipo de caridade, por isso dava preferência às crianças que ouviam mais do que falavam, ainda que ele mesmo não fosse um grande falador. Gostava mesmo era de assistir o efeito daquelas pequenas presenças no espírito do asilo. Seus companheiros e companheiras continuavam a comentar por dias a fio aquela breve incursão. Era pena que esses dias se esgotavam antes da próxima visita.

Certa feita, sentado ao lado de uma senhora que, embora já apresentasse raros episódios de desorientação, mantinha-se bastante lúcida, observou uma jovem que se aproximava e, num ato de gentileza, afastou-se um pouco para a esquerda, convidando-a a sentar-se entre os dois. A moça sentou-se e começou puxando assunto com a senhora. Conversaram sobre presente e passado. Mais sobre passado que sobre presente. E aquele senhor gostava da atenção daquela menina. Ouvia com um interesse verdadeiro e seus comentários e exclamações eram sempre pertinentes e permitiam que a velhinha aprofundasse sua conversa e falasse até esgotar suas palavras. Os olhos daquela senhora brilhavam de satisfação, um brilho colorido em Technicolor, enquanto ela falava sobre sua vida. E mesmo no presente, seu discurso exalava novela de época ao comentar, discretamente, entre risinhos, seu namorico com respeitável senhor residente daquela instituição. E foi nesse gancho que a pequena moçoila se pendurou para trazê-lo ao assunto, logo após a chegada de um rapaz que engatou conversa com a senhora, perguntando-lhe "E o senhor, tão bem apessoado e sempre bem vestido, não namora ninguém aqui dentro?" com um sorriso que oscilava entre a inocência da pergunta e a malícia da intenção. "Vixe, faz tanto tempo que não namoro ninguém que acho que nem sei mais como se faz isso", foi a resposta oferecida, coroada com uma sonora gargalhada de quem desvia um ataque. "Ah, sério mesmo? Se o senhor quiser, então, eu posso brincar de ser sua namorada pro senhor relembrar como é!" foi a réplica da menina, seguida de um risinho brincalhão de neta. Fingindo seriedade, o senhor desconversou "Ê menina, pára com isso que eu tenho idade pra ser seu pai... três vezes!" E a jovem, com a mesma bondade que demonstrara na conversa com a velhinha, perguntou "O senhor é viúvo?" querendo dar continuidade à conversa. "Pra ser viúvo, teria que ter sido casado, menina, e essa felicidade eu não tive na minha vida." "Sério mesmo? Mas por que não? O senhor é tão bonito, deve ter sido um arrasa coração na sua juventude." Rindo, uma risada franca e divertida, ele então responde "Nem tanto assim... Essa beleza de agora é porque sou velho e minhas rugas escondem muita coisa. Era até que bonito, sim, mas não tanto quanto você imagina, e não arrasei muitos corações. Talvez tenha sido até mais arrasado que arrasador." Inocentemente, a pequena pergunta "Então foi o senhor que nunca quis casar?"

E então ele se ajeita no banco, arruma o óculos no nariz e diz "Olha, querer eu quis, mais de uma vez e com mais de uma moça. E, cada vez por um motivo, ou talvez todas as vezes pelo mesmo motivo, não sei dizer bem, não deu certo com nenhuma delas. Sequer cheguei a noivar." Surpresa, a menina exclama "Que pena!" com uma sincera expressão de compaixão em seu rosto. Num gesto como se dispersasse fumaça, ele continua "Pena por que? Só porque não casei? Isso não quer dizer que fui infeliz. Acho que meu último namoro terminou terminou antes que completasse quarenta anos e, desde então, estou sozinho. Ou melhor, solteiro. Sozinho de verdade eu nunca estive. Mantive minha família por perto, amei meus sobrinhos e sobrinhas como se fosse filhos. Minha casa vivia cheia de amigos e minha profissão me obrigava a estar sempre rodeado de pessoas. Mesmo agora, quando meus amigos e parentes começaram a ficar mais escassos, preferi vir morar aqui, ao invés de ficar sozinho em casa." "Mas mesmo assim, o senhor não se sentia solitário? Não sentia falta de uma companheira?" pergunta novamente a moça, ainda mais surpresa e interessada. "Sentia, sim, várias vezes. Mas ao longo dos anos aprendi a viver sozinho. O casamento é uma coisa muito difícil, mas talvez seja mais fácil que viver sozinho, porque a gente sempre tem alguém pra dividir a vida, tanto as coisas boas quanto as ruins. Até quando ele não dá certo e termina em divórcio, ainda é mais fácil que a solteirice, porque você tem alguém pra culpar e xingar, pra aliviar as dores do próprio coração. Quem se casa, sempre tem alguém que depende dela e alguém pra depender. Quem é sozinho não tem isso, fica com tudo que é bom pra si mesmo, mas também tem que agüentar tudo que é ruim e não tem em quem pôr a culpa. Hoje, eu acho que nem todo mundo nasce pra casar. Tem gente que talvez nasça justamente pra aprender a viver sozinho, pra construir a própria pessoa, pra aprender a não depender dos outros. Isso é quase a mesma coisa que carregar uma montanha sozinho. Não é impossível, mas é muito difícil. Tudo na vida é difícil, mas aprendi que cada um tem uma dificuldade pra enfrentar." E antes que a moça pudesse continuar, a conversa terminou, quando aquele rapaz se levantou, chamando pra brincadeira que iria começar.

Mais comum do que parece

         Era uma vez um jovem normal. Desses normais, mesmo, até demais. Especificamente, um adulto jovem, desses que aumentam a estatística do desemprego e que pagam mais pelo seguro do carro. Mas, pelo menos nesse ponto, ele não tinha do que reclamar, trabalhava. E não tinha carro. Era um pós-adolescente padrão. Saíra de casa há alguns anos, a fim de estudar. Mudara-se de uma cidade pequena pra outra maior e, após muitas sortes e oportunidades de pessoas comuns, como ele, conseguira se manter por lá, trabalhando logo após a formatura. E lá estava já há alguns anos, firme e forte. Tanto quanto lhe era possível. Seus chefes o consideravam competente, seus colegas o estimavam e seus clientes eram cativos. Acordava todo dia logo cedo, um banho e um café rápido, vestido e seguia. Uma breve caminhada até o ponto e, de transporte coletivo, atingia seu destino. A responsabilidade ambiental camuflava o desejo de adquirir um veículo próprio frustrado pelas finanças. Suas contas eram todas pagas e nunca passara fome, mas sabia não ter condições de sustentar as próprias rodas. Retornava no final da tarde. Ocasionalmente, no começo da noite. Em raros dias, chegava em casa depois do telejornal. E assim, vivia um dia após o outro. Comumente, ordinariamente, sem grandes emoções.

         A maior emoção de sua vida era desconhecida da maioria das pessoas. De todas as pessoas, na verdade, exceto do próprio jovem. Ninguém sabia de sua imaginação fértil e inquieta, ininterrupta. Vivia duas vidas, a ordinária, que lhe alimentava o corpo, e a extraordinária, que lhe alimentava o espírito. Imaginava-se imbatível, irresistível, incomparável, em seu mundo onírico. Ninguém conhecia o jovem que construíra em sua mente, completamente diverso daquele que se manifestava no mundo real. E era essa imaginação fértil que lhe motivava o dia-a-dia. Cada hora que passava acordado era vivida concomitantemente nos dois mundos. Seus olhos brilhavam na fantasia enquanto suas mãos trabalhavam nos papéis.
         E era um dia comum. Pouco comum, na verdade. Era um daqueles raros dias que chegaria em casa após o telejornal. Ruas quase desertas, mesmo aquela avenida tão movimentada. E foi durante a travessia, após olhar para os dois lados da rua e seguir olhando em frente, que subitamente tivera vontade de olhar para cima. E olhou, e parou quando viu aquele risco de luz percorrendo o céu enegrecido. Desejou, rapidamente, que aquela estrela cadente tornasse sua vida inversa ao que era, o sonho na realidade e a realidade no sonho. E antes que terminasse aquele desejo ensaiado, viu outro risco. E outro. E outro. E outro. E dezenas deles. "Uma chuva de meteoros - pensou - que tolice a minha." E antes que completasse mais esse pensamento, um silvo, um assobio intenso, uma luz forte e um baque vindo pela esquerda. Quando abriu novamente os olhos, sentia o asfalto frio em contato com suas mãos, sua cabeça latejando intensamente e algo molhado em sua orelha. Levou a mão até lá, trazendo-a colorida de vermelho diante dos olhos. Sentou-se e olhou em volta. Não muito longe, uma pequena pedra, pouco maior que uma bola de tênis, fumegante. Ou não. "Coisa de vândalo - pensou - e ainda estou tendo alucinações." Pegou sua mochila, levantou-se e seguiu adiante, feliz pela rua deserta, livre de testemunhas que pudessem vir a rir de sua sorte. Em casa, após lavar adequadamente sua ferida, examinava-a diante do espelho, satisfeito pelo conhecimento médico que adquirira durante muitas horas de dedicação àquela produção televisiva estrangeira. "Não é tão grande assim, e também não estou com nenhum sintoma de concussão", declarava para o espelho. Um comprimido que amenizasse essa dor, dispensou o curativo e dormiu, cansado.
         E acordou. Sem dor. Sentindo-se leve como há muito não se sentia. Como nunca se sentira, na verdade. Tão leve que não percebeu que não havia ferida enquanto lavava a cabeça. Já vestido, dispensou o desjejum, não sentia fome. "Vou comer na rua hoje", planejou, e saiu mais cedo que o normal. Virou uma esquina antes, quis fazer um caminho diferente. E escolheu outra padaria. Satisfeito, diante do caixa, ouviu "Fica quieto e me dá o dinheiro do caixa" e, num ato reflexo e impensado, virou-se na direção da voz. Estranhou a lentidão com que o meliante se movia. Aliás, tudo parecia meio devagar. Teve tempo de tomar a arma da mão do indivíduo, dar-lhe uma cotovelada no queixo com o outro braço e, quando piscou novamente, viu a operadora de caixa ainda com a gaveta entreaberta, a balconista levando a mão à boca num gesto de espanto e o assaltante estatelado no chão, atônito, incapaz de compreender o que lhe acontecera. E quando este, rapidamente, levantou-se e pôs-se a correr em direção à porta, ele pensou em detê-lo e, antes que pudesse concluir a imagem mental, encontrava-se na porta do estabelecimento e esticou o braço, como se quisesse pedir que parasse, e o agressor se chocou contra sua mão e voltou ao chão, enquanto o meganha, chamado por um cliente que não chegara a adentrar o recinto, se anunciava e assumia o controle da situação. Um breve momento de distração e, quando o policial se virou para alertar o jovem contra o risco de reagir a um ato de violência, ele já não se encontrava ali. Aproveitara a deixa e saíra do local, em velocidade normal. Sentia-se grande, poderoso, estupefato. Tentava entender o ocorrido quando se lembrou da pequena pedra fumegante. Pensou em tantas estórias fantasiosas escritas por autores de revistas em quadrinhos e quis pular. E pulou. E não se sentiu atraído pelo chão. Tomou a direção do prédio onde trabalhava e sentiu-se satisfeito por não depender mais de rodas.
         Passou um dia comum, embora um tanto quanto anormal. Solícito como sempre, oferecera-se para ajudar a ajudante de serviços gerais a trocar o garrafão do bebedouro do corredor. Vinte litros de água lhe pareceram tão pesados quanto em qualquer outro dia. Mas um pensamento estranho e alertou a colega que passava às suas costas, evitando que a mesma escorregasse no pano de limpeza no chão. Durante o almoço, no refeitório, esbarrou num garfo e, viu-o cair tão lentamente que foi capaz de pegá-lo novamente antes que percorresse dez centímetros em direção ao solo. Nenhum de seus colegas sequer percebera o ocorrido. Começava a compreender o que lhe ocorrera, e gostava. Deixou a barba crescer. Mudou o corte do cabelo. Trocou de terno. Comprou outra mochila. Alternava o óculos de grau com o de sol. Mudava o visual constantemente. Conseguia se fazer presente onde era necessário. Sempre em horários de folga. Era importante manter a rotina e garantir o anonimato. Os jornais anunciavam um herói - ou vários heróis, não sabiam afirmar. Conseguira seu objetivo, fugira do clichê dos uniformes extravagantes e capas e máscaras. Seus colegas de trabalho zombavam da semelhança entre ele e os vultos obtidos em imagens de câmeras de segurança e celulares modernos, e o jovem ria junto, ironizando a impossibilidade de alguém tão comum quanto ele vir a ser um herói.
         Até que um dia, um daqueles que se tornaram comuns para ele, voltou para casa, cansado. Impedira um assalto a outra padaria logo cedo. Convencera uma jovem a desistir do suicídio no horário de almoço. Resgatara um casal de um carro tombado em uma cidade vizinha no caminho para casa. Um banho rápido e dormiu, dispensando o jantar. E o novo dia começou de uma forma nada comum. Nada parecido com sua nova vida, nem com sua vida antiga. Tinha dificuldade em abrir os olhos. Seu corpo doía. Suas pernas estavam em uma posição estranha. Quando finalmente viu a luz, sentiu-se virado de lado, seu pescoço meio torto e o rosto comprimido contra um travesseiro de fronha branca. Tentou falar, mas não conseguiu. Tentou virar a cabeça e se afastar do travesseiro, mas também não conseguiu. Só era capaz de virar os olhos, freneticamente, de um lado a outro. Além da fronha branca, um pedaço de pano verde. Então, foi bruscamente deslocado e viu-se olhando para um teto também branco, sentindo o corpo todo dolorido, agredido. Olhou em volta, da forma que pôde, e viu mais panos verdes. Uma camiseta de cortes retos vestida em uma moça jovem. Outra camiseta semelhante vestida em outra mulher, mais idosa. Agora entendia, o pano verde cobria a barriga daquela jovem senhora. Parecia um uniforme, mas de onde, não era capaz de compreender. Olhava em volta e via um monitor com traços coloridos, números e letras que não faziam sentido, cheio de cabos pendurados que pareciam vir em sua direção. Do outro lado, um aparelho grande e cheio de botões, fazendo sons similares a rajadas de vento. Notou também vários outros aparelhos, cheios de fios transparentes, alguns coloridos, uns com penduricalhos e outros lisos, e todos pareciam convergir em sua direção.
         Foi então que ouviu uma voz suave exclamando "Olha, ele acordou! Vai chamar a mãe dele!" e percebeu que vinha da moça. Enquanto a jovem senhora se afastava, a moça olhou para o jovem e disse "Bom dia jovem! Que bom que acordou! Consegue me ouvir?" Quis gritar sim, mas sua voz não saiu. Sequer foi capaz de mover sua boca. "Aperta minha mão", falava a moça, como se conversasse com um deficiente auditivo. Tentou, muito, mas sua mão não parecia sua. "Pisca o olho se estiver me ouvindo." Piscou. Piscou. Piscou. Freneticamente. "Pisca uma vez pra sim e duas vezes pra não, tá me entendendo?" Piscou. "Ótimo, agora faz um não." Piscou piscou. "Que bom que está consciente! Sua mãe está chegando pra te ver, vou chamar a doutora pra conversar com você." E olhando em volta, localizou sua mãe, aproximando-se. Quis chamá-la, quis gritar, mas sua voz não saiu e sua boca não mexeu. "Meu filho! Até que enfim acordou! Você está no hospital, meu querido. Foi atropelado por um caminhão quando voltava do serviço e faz quase três meses que tá em coma." E então percebeu que ainda era capaz de chorar. Lágrimas quentes escorriam pelo seu rosto e sua mãe tentava secá-las, em vão, tão abundantes eram. "Não chora filho, vai ficar tudo bem agora. Você tá em um dos melhores hospitais da cidade, a empresa tá pagando tudo. O caminhão era de uma transportadora e o próprio dono da empresa, quando você ainda tava sendo socorrido, mandou te trazerem pra cá e disse que ia cobrir todos os gastos. Eles também pagaram minha passagem pra cá e tão pagando o hotel, mas eu quase não vou pra lá, tô ficando quase que só aqui no hospital, junto com você. A empresa chama Estrela Cadente e são todos pessoas muito boas. O próprio motorista que te atropelou já veio te visitar várias vezes, pediu desculpas muitas vezes e sempre chora quando vem, coitado, mesmo eu falando que foi um acidente que podia acontecer com qualquer um." E o jovem chorava, mais e mais. Chorava de dor. Seu corpo doía. Seu espírito também. O sonho que virara realidade nunca deixara de ser sonho. E até mesmo a realidade que vivia tornara-se um sonho, um eco do passado.
         Sua mãe tentou consolá-lo, ressaltando a fé de toda a família, elogiando o zelo da equipe hospitalar e contando as melhoras que já apresentara desde o acidente. A médica do plantão tentou consolá-lo, descrevendo a situação em que chegara, relatando a evolução do quadro clínico e comentando o estado atual. As enfermeiras e enfermeiros, os fisioterapeutas, as faxineiras, todos o conheciam pelo nome, todos sabiam sua história de acidentado e de jovem adulto, sabiam de sua formatura, seu trabalho, sua casa. Todos que passavam ao seu redor lamentavam seu sofrimento e incitavam sua melhora. Sopravam palavras de incentivo e esperança. E ele ouvia. Era só o que podia fazer, ouvir. Seus braços e pernas doíam. Seu peito e barriga doíam. Suas costas doíam. Sua alma doía. Passou o primeiro dia desperto chorando, desesperado, sem saber o que esperar do seu futuro. Não conseguia dormir. Fechava os olhos e ouvia os bipes dos diversos aparelhos ao seu redor. Ouvia os lamúrios dos pacientes vizinhos. Ouvia as conversas dos profissionais que trabalhavam. Quando o segundo dia começou, esgotara seu reservatório de lágrimas, mas ainda não era capaz de sorrir. Não era capaz sequer de mover sua boca. Só o que conseguia eram sins e nãos com piscada e piscada piscada. E pensava, muito. Sempre pensara, muito. Sempre sonhara, mas agora não era capaz de sonhar. Não mais. O mundo de sonhos em que vivia era agora o mundo real. Sua mente, antes povoada por imagens surreais de um jovem que não existia, era agora tomada de imagens antes reais de um jovem que existira, mas que agora parecia mais distante que o mais impossível dos sonhos.
         E assim se passaram os dias. Sentiu seu corpo sendo penetrado por sondas e agulhas de diversos tipos e tamanhos. Sentiu o carinho daqueles que atendiam a uma vocação e o desprezo daqueles que encontraram a frustração. Viu o motorista do caminhão se desmanchar em lágrimas de dor e alívio ao vê-lo acordado e consciente. Viu o dono da Estrela Cadente ajeitar sua gravata enquanto soprava promessas de incentivo. Soube que era sábado quando viu sua mãe ser substituída por seu pai e irmãs. Viu seu chefe tentar ser humano. E dissertava sobre verdades e mentiras e sobre tudo que sabia e queria saber, sempre em seus pensamentos, enquanto piscava sins e nãos. Suas mãos só se moviam nas mãos de outrém. Seus lábios não respondiam aos seus comandos. Descobriu que até mesmo sua respiração fora terceirizada.
         Assim se passaram onze dias. No décimo segundo, quando abriu os olhos após uma noite insone, viu sua mãe acordando na poltrona ao lado da cama. Já não sentia mais a revolta do injustiçado. Pelo contrário, sentia o peso do carrasco por prender sua querida genitora naquele sofrimento. Já não sentia mais a dor da perda. Sentia a saudade leve de quem viveu uma vida agradável. Até mesmo a dor física parecia amenizada. Passou um dia calmo e sereno. Até que uma hora piscou. E quando abriu os olhos, viu sua mãe a ressonar na sua poltrona cativa. Postado ao lado dela, em pé, um senhor de idade lhe acariciava os cabelos, observando-a com ternura. "Vovô?" disse ele, e para sua surpresa, sua voz saiu alta e clara. O homem, então, voltou seu olhar para o jovem e sorriu. Um movimento acima de sua cabeça e o jovem voltou seus olhos para cima, constatando a presença de uma jovem moça atrás de si, as mãos postas em concha sobre sua cabeça, sem tocá-lo, os olhos fechados e uma expressão concentrada. Quis sentar e, surpreendemente, apoiou-se nos cotovelos e elevou o corpo, sentando-se na cama. E então, ainda surpreso, ouviu sua voz dizer "Vovô? O que faz aqui? O senhor faleceu há muitos anos!" Em resposta, o homem se aproximou dele e, colocando suavemente a mão sobre seu peito, disse-lhe "Fique calmo, está tudo bem. Deite e descanse mais um pouco, precisamos terminar nosso trabalho. Ainda há tempo de despedir-se." e delicadamente fez com que o jovem se deitasse novamente. E então ele piscou, outra vez. E quando abriu os olhos, só via sua mãe num sono leve, um enfermeiro manuseando alguns aparelhos ao seu lado. Sentiu-se leve, como nunca se sentira antes. Quis conversar com sua mãe, e chamou-a. Sua voz não saiu, mas seu pensamento se deslocou e sua boca se moveu, pela primeira vez. Como se tivesse ouvido seu chamado, sua mãe acordou, calmamente, levantou-se e postou-se ao lado dele, em pé. "Tá tudo bem, meu anjo, a mamãe está aqui." E ele a olhou nos olhos, com carinho, como nunca olhara antes. E, mesmo sabendo que sua voz não seria ouvida, disse "Mamãe... eu te amo... me desculpe." e sequer percebeu que seus lábios se moveram. Sem saber se lera seus lábios ou se ouvira seus pensamentos, a mãe respondeu "Eu também te amo, meu querido, mas desculpe por quê?" E o jovem piscou de novo e, quando abriu seus olhos, viu seu avô ao seu lado, envolvendo sua mãe em um abraço. Do outro lado, a jovem o observava com ternura, estendendo-lhe a mão como se o convidasse a se levantar. Piscou novamente e viu sua mãe, seus lábios se movendo, mas não foi capaz de compreender suas palavras. Fechou os olhos e tomou a mão da jovem, levantando-se, abrindo os olhos enquanto se firmava em suas pernas. Olhou em volta e viu aquele monitor cheio de traçados e números. Viu aquela linha verde que formava um desenho geométrico, regular e uniforme, tornar-se plana, contínua, sem oscilações. Viu uma luz vermelha piscar, chamando a atenção do enfermeiro ao seu lado. Viu o enfermeiro puxar o lençol que o cobria e mexer nas peças grudadas em seu peito e, em seguida, levar os dedos indicador e médio ao seu pescoço, logo abaixo da mandíbula. Foi então que percebeu que via a si mesmo, deitado ao lado de sua mãe. Viu outra enfermeira se aproximar e, a uma troca de olhares com o primeiro, envolveu a mãe e parecia convidá-la a se retirar, ao mesmo tempo que o primeiro corria até um carrinho repleto de gavetas e equipamentos diferentes, trazendo-o em direção a sua cama enquanto uma terceira pessoa corria, seguida do médico do plantão. Enquanto via sua mãe, assustada, ser levada em direção oposta enquanto uma cortina era fechada ao redor do seu leito e outras pessoas se aproximavam, sentiu o braço de seu avô a envolvê-lo, convidando-o "Vamos?" e percebeu que ainda segurava a mão da jovem. Apertou-a, como se quisesse ter certeza de que aquilo era real. Olhou em seus olhos, cheios de carinho e compreensão, e olhou para o avô, que o fitava com um sorriso acolhedor, e deixou-se guiar em direção à porta. No meio do caminho, parou, desvencilhou-se dos seus companheiros, abraçou sua mãe, envolvendo-a com os dois braços, beijou-lhe a testa e sussurou "Mãezinha, eu te amo! Não chores mais, pois estou livre!" e seguiu adiante, com suas próprias pernas, lado a lado com seu avô e a jovem. Atravessou a porta, sem olhar para trás. Aquela não era mais sua realidade.