As Crônicas da Vacilândia - O Bolinho do Marechal

Este trecho foi extraído do livro Nem Queria Mesmo – Memórias de um Primeiro Ministro, e relata os bastidores da administração da Vacilândia, revelando como foi contida uma potencial revolução de hereges usurpadores golpistas.

Evangelho Apócrifo do dr. Alfredo


Aviso: contém ironias, críticas, blasfêmias e deboche. Pessoas que se incomodam com cenas de sexo explícito podem ler à vontade, mas os que se incomodam com baboseiras blasfêmicas são aconselhados a clicar no link “Próximo blog”.

Sim, esse mundo anda meio estranho... ou eu que ando meio, assim... Ta tudo de cabeça pra baixo, acredite. E não, isso não é ruim.

Moscou

Estou deitado, olhos fechados, tentando esvaziar minha cabeça, quando ouço a voz dela.
– Há quanto tempo, não?

Short Stories

Segunda-feira. Dia mundial da preguiça, dizem alguns. E lá estava ela, com aquela expressão cansada e abatida. Mais um serão à beira daquele leito. Há tantos anos que já perdera a conta. Há tantos dias que sequer sabia que era segunda-feira. Aquela parecia a rotina de uma vida inteira. Deixara de lado os próprios sonhos e desejos para se dedicar àquela causa. Dedicara a própria vida ao desempenho daquela função. Não podia evitar. Não podia fugir. Era tanto amor, que aquela dedicação e sacrifício eram realizados com satisfação. Embora aquelas olheiras fundas, aquelas rugas expressivas e aqueles olhos de pouco brilho denunciassem o cansaço e a fadiga, suas atitudes sempre demonstravam firmeza e vontade. Suas mãos, seguras do que faziam, recusavam-se a apresentar qualquer tremor, por menor que fosse. Sabia que aquela estabilidade era o que mantinha tudo ao seu redor em pé, sólido. Sabia que não podia faltar. Falhara muitas vezes, mais até do que gostaria de admitir. Mas faltar, nunca. O que não sabia, era quando. Até quando. Era certo que, em algum momento, aquilo teria um fim. E ela sabia que estaria presente para vê-lo. Mas evitava pensar naquilo. Não por medo, pois a certeza de que um dia viria dava-lhe forças para não temer. Mas porque sua única insegurança era o depois.

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Desceu a escadaria e deparou-se com a porta. Aproximou a mão da maçaneta, mas estacou antes de tocá-la. Tremia feito vara verde, como diria sua avó. O suor frio que brotava em sua fronte fez perceber que ainda não era hora. Ainda não era capaz de confrontar aquilo. Há três meses não saía de casa. Três longos meses. Três intermináveis meses. Três malditos meses. Noventa e sete dias, mais precisamente, contados um a um, quase uma hora de cada vez. Dessas duas mil trezentas e vinte e oito horas, dormira menos de quatrocentas. Trezentas e oitenta e oito, mais precisamente, essas sim, contadas uma de cada vez. E vinte e sete minutos. Era a quinta vez que tentava sair. Naquele dia, apenas. Ao todo, foram novecentas e sessenta e duas tentativas ao longo daquelas treze semanas. Em todas elas, o processo se repetia. Tinha certeza de que aquela seria a definitiva, quando ainda estava no alto da escadaria. No meio, acreditava que seria capaz. No último degrau, rente ao solo, achava que conseguiria. Frente à porta, temia não conseguir. E quando buscava a maçaneta, sabia que voltaria atrás. E assim, baixou a mão e voltou à escadaria. Quem sabe o nonagésimo oitavo dia traria novas forças...

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Acordou atrasado. Olhou o relógio e vociferou algumas expressões pouco educadas. Levantou num salto, ignorou aquela sensação vertiginosa e dirigiu-se ao banheiro. Uma chuveirada rápida e a primeira roupa limpa serviu como vestimenta. Um pão na boca e um chiclete no bolso, pegou uma lata de suco e a chave do carro, levando a gravata em torno do pescoço, à espera do nó. Conferiu o relógio do carro e cosntatou que ainda tinha tempo de não se atrasar. Se o trânsito permitisse. Aliás, se o trânsito todo estivesse daquele jeito, conseguiria chegar cedo, até. Aliás, naquele horário, daquele dia, era de se estranhar aquele trânsito tão livre. Ao ligar o rádio, desatou a rir quando ouviu o locutor celebrar o feriado. E então constatou que um despertador não toca quando não está programado para tal. Pensou no que fazer. Praia não era uma opção, muitos provavelmente já estavam a caminho. Não gostava de shoppings e o campo era muito longe. Resolveu então fazer algo que há muito planejava, mas nunca tinha tempo de fazer. Uma visita que há muitos anos desejava. Dirigiu seu carro até a praça mais próxima. Pegou o celular, e desligou-o. Deixou a gravata no banco do passageiro, desabotoou metade da camisa e subiu as mangas. Pegou aquela toalha esquecida no banco de trás e então saiu do carro. Estendeu-a no gramado e deitou-se sobre ela. E, finalmente, pôs-se a ouvir os próprios pensamentos.

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Quantas vezes já te disse pra fechar a porta do carro com cuidado? Menos do que me mandou arrumar o quarto. Algum dia você vai deixar de ser um adolescente respondão? Algum dia o senhor vai deixar de ser um chato implicante? Quem sabe no dia em que eu deixar de ser seu pai. Ok, temos uma data marcada, então, você deixa de ser chato e eu deixo de ser adolescente. E quando vai deixar de ser respondão? Quando o senhor deixar de ser implicante. Nunca, então... Parece que sim... Estudou pra prova hoje? Não tenho prova hoje. Estudou pra prova hoje? Não tenho prova hoje, já disse. Estudou pra prova hoje? Mas que coisa, como você sabe que tenho prova hoje? Não sei, mas você sempre se entrega na terceira vez que pergunto. Droga! Olha a boca! Desculpe. E então, estudou ou não? Quase... Como, quase? Só faltou uma coisa pra eu estudar pra prova de hoje. O quê? Lembrar de qual matéria é a prova... O QUÊ? Ah pai... Ah pai o escambau! Olha a boca! Não me remeda! Desculpa... Como alguém não lembra de qual disciplina vai fazer prova? Ah, sabe como é, né... Não, não sei, me explica. Ah pai, é complicado, né! O que é complicado? Ah, sei lá... Sei lá, o quê? Ah, muita coisa pra pensar, né... Como que alguém que só estuda tem muita coisa pra pensar? Ah, bom, tem a fome na África, a seca no Nordeste, a neve na calota solar. Polar. Ou isso, muita coisa pra pensar, sabe como é, né... Não, não sei, e às vezes acho melhor nem saber. Credo pai!... E o que vai fazer com a prova hoje? Ah, sei lá... Sei lá, como? Pô pai, quanta pergunta! E nenhuma resposta, né?! Relaxa, pai, eu dou um jeito. Você sempre dá um jeito, e isso me preocupa... Qualé, o senhor nunca foi chamado na escola! Pois é, mas não se se é porque você é um bom exemplo, ou um bom mentiroso... Pô pai, não confia na educação que me deu? Na educação eu confio, só não confio no uso que você faz dela. Faz sentido... Pois é. Pára aqui, vou descer na esquina. Por quê? Preciso de um chiclete. Chiclete? Sim, chiclete. Sei... Qualé, juízo eu tenho, viu! Então vê se usa! Pô pai... Pronto, tá entregue. Valeu, até mais tarde. Vai com Deus, te amo. Também, fui! Boa prova. Que prova? Não força... Mal aí, beijo e tchau!

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Eu usei as palavras que pude usar. Eu disse o que sinto e o que penso. Como sempre fiz. Só não disse tudo. Como sempre... Há coisas que guardo só pra mim, não sei bem se por egoísmo ou por medo ou por ambos. Mesmo que, às vezes, fosse melhor compartilhá-las. Mas eu disse o que pude dizer. E olhei como pude olhar. E toquei como pude tocar. Nem o toque, nem o olhar, nem o dito foram como quis, apenas como pude. Não sem alguma dificuldade. Meu coração se debatia e contorcia num ritmo desenfreado e fora do normal. O tremor começava na espinha e percorria cada célula até as extremidades mais extremas do meu corpo. Confesso que foi uma espontaneidade forçada, a princípio, mas aos poucos evoluiu para uma naturalidade espontânea, ainda que um pouco doída. Uma dorzinha surda e persistente, leve porém incômoda apenas por ser dor. Por causa daquela falta de calor. Não chegava a ser frieza, apenas a ausência daquele calor confortável e acolhedor que parece ter deixado de existir. Uma presença levemente ausente, como encarar alguém através de uma cerca de arame farpado. Está ali, mas é inatingível. E ainda que o sol ultrapasse os trinta e muitos graus, só o que senti foi a falta de calor. Do nosso calor. Do meu calor. Pois, devo confessar, eu mesmo não fui eu mesmo. Não completamente. Não como quis. Apenas em partes. Apenas como pude. E é isso que serei. E é isso que farei. O que puder. Tudo, mas apenas como puder. Com tudo que eu tiver disponível de mim mesmo. Um tudo que eu mesmo já não sei o quê ou quanto é. Menos ainda quanto será. Mas, pouco a pouco, eu reencontro algo desse tudo, até que tudo volte a ser tudo de novo, completo. Mas, por enquanto, infelizmente, serei apenas o que puder. Mas serei. E estarei. E farei. Sempre. Pois, afinal, tudo isso sou eu, ainda que eu não seja tudo isso...

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Me desculpe, não foi de propósito. Eu sei, não estou te julgando por isso. Mas mesmo assim, sinto muito. Eu também sinto. Não era pra ser assim... Talvez fosse, quem sabe?... Eu sei, não era pra ser assim. Queria poder acreditar nisso. Eu também, por isso repito pra mim mesmo todo dia. E funciona? Até agora, não... Então, por que insiste nisso? Porque eu quero acreditar nisso. Por quê? Porque a pequena ilusão de que poderia ter dado certo é muito menos dolorosa que a certeza de que estava fadado ao fim. Mas eu nunca disse isso. Ninguém disse, mas mesmo assim não quero sequer considerar essa possibilidade. Mas não deixa de ser uma possibilidade... Deixa sim. Você e seu otimismo... Eu e meu realismo, você diz. Que raio de realismo é esse? O realismo de que as coisas são feitas pra dar certo, e não pra falhar. Então por que dá errado? Porque somos humanos e estamos condicionados ao erro. Então, de qualquer forma, ia fracassar. Talvez, mas se não sucumbíssemos ao erro, teria dado certo. E como não sucumbir ao erro? Se eu soubesse, não estaríamos tendo essa conversa. Faz sentido... Pois é... E agora? Não sei, e agora? Não sei... Pois é, então me vou. Já? Já, preciso ir. Por quê? Não sei, mas preciso... E vai pra onde? Não sei, mas vou... Hum... É, desculpe ser tão vago, mas é essa a verdade, eu não sei... E você volta? Eu estarei aqui. Mas você disse que estava indo. E estou, mas estarei aqui. Até quando? Não sei... Hum... Pois é, me vou então... Tá... Beijo e fica com Deus. Te amo. Também... Tchau...

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Confesso que, por um momento, tive medo de escrever. Me disseram que tudo que eu escrevesse seria interpretado segundo os olhos do leitor. E eu, apesar de viver a minha vida do meu jeito, me preocupo um bocado com a forma como me interpretam. Tenho medo de ser mal interpretado. E, pra ser muito sincero, às vezes, muitas delas, na verdade, eu mesmo não entendo exatamente o que está ali. Vejo várias interpretações pra uma mesma imagem, ou vejo nada. Mas também me pediram que eu continuasse a escrever como sempre escrevi, do meu jeitinho. Acho que isso quer dizer que devo viver minha vida sem medo de como irão me interpretar. Mas é difícil, muito difícil... Confesso que quase me calei, quase não escrevi. Mas, num impulso que talvez devesse ser refreado, eu escrevi. Aliás, vários impulsos eu deveria ter refreado, mas esse excesso de autenticidade e espontaneidade e naturalidade sempre me quebra as pernas. E, ainda que, depois, eu me arrependa e fantasie inúmeras formas de não dizer aquilo que já havia sido dito, bem lá no fundo, eu sei que isso é inevitável, pois sou um péssimo mentiroso. E esconder coisas também não é nada saudável. Elas surgem, em algum momento. Elas sempre surgem. Por isso, de alguma forma, gosto mais da verdade. Ainda que, às vezes, ela seja um bocado dolorosa, pois ela me deixa mais livre, pra que eu possa continuar a ser eu mesmo, pra que não precise planejar um fingimento e possa preservar esse meu jeito meio eu de ser. Ainda que esse jeito seja meio torto, um pouco mais do que eu gostaria...

O Espelho

Espelhos. Era esse seu fascínio. Desde que se entendia por gente. Sempre os admirava, ainda que à distância. Via seu reflexo naquelas lâminas de vidro e surpreendia-se com a mágica que se ocultava por detrás delas. Todos seus movimentos, copiados porém invertidos com uma perfeição incrível. Incompreensível, a seu ver. Ainda em tenra idade, detinha-se por horas a fio a observar a própria imagem refletida, a interagir consigo mesmo com gestos, saltos, danças e tudo mais que pudesse fazer. No começo, incomodava-se com o silêncio do seu eu invertido, mas com o tempo acostumou-se, e passou até a gostar. Aquela companhia silenciosa permitia que se concentrasse nos próprios pensamentos, que viajasse para dentro das próprias idéias e sentimentos e aprendesse um pouco mais sobre si mesmo. Surpreendentemente, não era tudo que o fascinava. Vidros e pratarias e qualquer outra coisa que refletisse sua imagem eram apenas um reflexo qualquer, apenas uma cópia sem vida. Mas os espelhos não. Havia algo de diferente neles. Havia algo de... mágico. De místico. De fantástico. Tanto que nunca tivera coragem de tocá-los.

Não sabia dizer o porquê, mas nunca tivera coragem de tocá-los. Vontade tinha. Muita vontade. Por vezes, aproximou sua mão até quase tocar, sentindo como se sua própria aura refletisse naquela camada vítrea e tocasse sua mão de volta. Em outros momentos, tinha a impressão de que aquilo que sensibilizava suas terminações nervosas provinha do próprio espelho, como se viesse de algo além daquela barreira. Pesquisou. E como pesquisou! Mas nada parecia esclarecer o suficiente. A física era muito fria, insensível. Conseguia compreender aquelas coisas complicadas sobre luz e reflexo e refração e tudo mais que tentavam explicar, e era capaz de visualizar tais conceitos em qualquer lugar onde visse seu reflexo. Exceto nos espelhos. Havia mais neles, algo com uma certa aura mística, envolvente, diferente. Mas, ao mesmo tempo, as explicações mitológicas também era questionáveis. Fantasiosas por demais, tornavam-se inacreditáveis. E insuficientes. Sabia que a verdade ia muito além do que se via, do que se lia, do que as pessoas julgavam saber.

Até o dia em que permitiu que a curiosidade e a sede de conhecer sobrepujassem o medo. E enfim aproximou-se do espelho. Levou a mão tão próxima quanto pôde, sem tocá-lo, ainda. Outra vez sentia aquela energia pulsada que tocava sua mão, sem saber se era a própria aura a refletir-se ou se era uma emanação sabe-se lá de onde. E então, lentamente, aproximou-se mais, até tocá-lo. Uma superfície sem temperatura, fria porém quente. Sólida como o chão que o sustentava, mas que parecia tão etérea quanto o ar que respirava. Era um toque que, ao mesmo tempo que não oferecia qualquer resistência, parecia impenetrável. Mas, tão lentamente quanto se aproximou, continuou a deslocar sua mão e, novamente surpreendemente, ela atravessou o espelho. Olhava o próprio antebraço, meio dentro, meio fora, como se fagocitado pelo próprio reflexo. Sentia o contato da lâmina de vidro refletora ao redor da pele, quase como se fosse água, mas aquela superfície não tremulava, não se perturbava com aquele contato. Do outro lado, sua mão sentia... nada. Não havia vento, nem calor, nem frio, nem nada. Trouxe-a de volta, e ela era tão mão quanto antes. E o espelho, outra vez, se comportou como se nada daquilo fosse com ele. Nem uma única ondulação em sua superfície. E assim, num impulso de curiosidade e irracionalidade, projetou-se num passo adiante, em direção ao espelho, e estacou após duas passadas, ainda de olhos fechados, sem saber o que acontecera.

Abriu-os lentamente e viu-se num plano diferente. Olhou para trás e viu-se refletido numa pequena parede sem limites definidos. Via-se de costas, com o pescoço voltado para trás a encarar os próprios olhos. Um perfeito reflexo. Ao fundo deste reflexo, via também o mesmo que vira diante de si, naquele plano diferente. Virou-se novamente para frente e observou novamente o que ali se encontrava. Nada. Ou tudo, não sabia definir. Aquela paisagem, que parecia tão vazia, ao mesmo tempo se mostrava tão plena que parecia não precisar de mais nada para existir. Ao alcance de seu braço, e até mesmo de sua vista, tudo parecia vazio. Tão vazio que o nada tomava forma e preenchia a si mesmo. Mas, além do que via e tocava, era como se soubesse, como se sentisse que havia mais. Divisava contornos, formas e paisagens que pareciam tão longínquas que quase podia tocá-las. E meio assim sem motivo, olhou para trás novamente.

E lá estava seu reflexo, devolvendo seu olhar. E então, virou-se de frente a ele. E, como que por mágica ou sabe-se lá o quê, seu reflexo desapareceu tão logo se pôs frente a frente com ele. Assustou-se e olhou para trás novamente e, para sua surpresa, encontrou aqueles olhos refletidos a lhe devolverem o olhar com a cabeça virada sobre os ombros. Estava a menos de um passo de distância. Sentia que, se desse uma passada para trás, atravessaria aquela parece e se encontraria novamente diante do espelho que confrontara anteriormente. Mas... não queria. Não era o que desejava. Gostava daquela vida, mas as possibilidades que agora se descortinavam à sua frente pareciam chamar seu nome. Sabia que aquilo que tivera antes não seria satisfatório o suficiente para que aceitasse retomar aquela vida de antes. Ainda encarando os próprios olhos no reflexo, observou o vazio que circundava ambos. Aquele vazio tão pleno que era capaz de satisfazer só por estar presente. Olhou adiante outra vez e admirou aquela imensidão de nada repleta de tudo que poderia viver. Encheu os pulmões e expirou lentamente enquanto dava o primeiro passo. Às suas costas, nem mesmo precisou olhar para saber que seu reflexo permanecia à mesma distância. Ou quase. Estranhamente, era como se sentisse que aquela parede ficara menos de um milímetro mais longe, mas ainda assim se afastara. Deu outros passos até senti-la quase dois milímetros mais distante. E então compreendeu que cada passo dado naquele mundo só o levaria à frente. Em direção aos mundos que sabia existir, ainda que não os pudesse ver. E assim, olhando para trás uma última vez com olhos de despedida, começou a caminhar, sentindo aquele mundo que um dia fora seu pouco a pouco mais distante. Não havia mais como voltar. O único caminho era aquele que seu nariz lhe apontava.

Lama

Foi quando começou a chover. Ele estava ali sozinho, a observar aquela paisagem vazia. Recebeu aquela chuva como uma benção. Fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, recebendo aquela água celeste como um bálsamo. E ali ficou, sabe-se lá por quanto tempo, a banhar-se nas lágrimas da natureza e pedir-lhe que lavassem as suas. Voltou novamente a olhar para aquela paisagem desoladora e então viu. Nada. Absolutamente, nada. Apenas um deserto descampado com pequenos tufos de uma relva rasteira, dura, de um verde opaco desvitalizado e odor desagradável. Ao longe a chuva compunha uma cortina cinzenta, densa, que quase parecia impenetrável, consoante com aquela paisagem quasimorta que encarava. Desde o começo soubera que aquela era uma possibilidade. Indesejada. Esquecida. Menosprezada. Mas não ignorada. Mesmo assim, arriscou-se e mergulhou. E assim desembocou naquele mundo, ainda sem saber exatamente onde era. Ao seu redor, aquela paisagem o paralisava. Temia. E tremia. Não conseguia distinguir se era frio ou qualquer outra etiologia. Aquela chuva de grossas e pesadas e molhadas e geladas gotas que lhe esfriavam a carne, enregelando-o até os ossos, mas parecia aquecer-lhe a alma, de alguma forma. Ao longe, não se sabe a que distância ou em que lugar ou por que razão, viam-se tênues feixes de luz. Era o sol que rasgava e penetrava aquela densa cortina plúmbea. Não iluminava nada em especial, apenas aquele mesmo solo árido revestido por escassas ilhas de lâminas gramíneas. Mas, por algum motivo, sentia vontade de andar em direção àqueles holofotes celestiais. Ao seu redor, aquelas mesmas gotas que lhe esfriavam o corpo e aqueciam o coração tocavam o solo num baque surdo, ritmado, formando pequenas crateras de lama que imediatamente se dissipavam num raso oceano que começava a se formar sob seus pés. Ao redor dos seus pés. Sobre seus pés. Pouco a pouco aquela lama sólida e lamacenta ganhava vantagem sobre ele, enquanto distraidamente admirava aquela paisagem. Foi quando tentou sair que notou. Aquela pegajosa camada retinha seus pés de tal forma que a força que empenhou naquela frágil vontade cedeu à resistência do lodo. Não se moveu, afinal. Encarou os próprios pés e suspirou. E desanimou. Olhou novamente à frente, e de repente aquelas ilhas de sol lhe pareceram tão distantes, tão inatingíveis... Cada célula do seu corpo parecia pedir-lhe que ali ficasse. Subitamente, teve vontade de deitar-se e deixar-se engolir por tudo aquilo que via. Pareceu-lhe confortável a idéia de permitir que aquela lama e aquela chuva e aquela paisagem o fagocitassem e junto com ele encobrissem tudo que o levara até ali. E cada organela de cada célula de cada órgão de cada sistema de seu corpo parecia desejar o mesmo. O lamaçal já lhe cobria os tornozelos e era com olhos opacos e sem brilho que observada as próprias pernas a se debaterem debilmente, qual um animal moribundo e agonizante num delírio de sobrevivência. E cada novo esforço, se é que se podia denominá-los como tal, parecia mais desprovido de vontade, como se aquele chão sedento de vida drenasse cada quântum de energia vital que ainda lhe restava. E embora seu corpo implorasse um repouso, suplicando que parasse ali mesmo, entregando-se à inércia à inépcia ao desalento e enfim declarasse o fim, algo ainda o mantinha em pé. Aquela estranha chuva que lhe esfriava até os ossos mas parecia aquecer algo mais íntimo, mais profundo. Já não sabia se chorava ou se era o céu a lhe lavar as dores e compor as lágrimas, que já não tinham aquele sabor salobro. Mas já não doía tanto assim. O frio anestesiara-lhe a carne. O calor aquecera-lhe a alma. E ainda que sentisse brotar dentro de si pequenos riachos de pranto, ainda que toda sua matéria lhe pedisse pouso, ainda que aquela paisagem lhe inspirasse o fim, continuava em pé, rijo, sólido. E aquela perna que então se debatia, entregue ao desalento, não cedeu à resistência e lenta porém gradualmente galgou altura até projetar-se fora daquela prisão lamacenta, para em seguida ganhar distância à frente e por fim mergulhar novamente naquele barro incapacitante. E apoiando-se no impulso de sobrevivência daquela primeira perna, a segunda também se elevou e projetou-se um pouco mais adiante. E assim foi, pé ante pé. Vagarosamente. Penosamente. Insistentemente. Não sabia para onde ia. Mas, mesmo assim, ia.

E então ele afastou a cadeira, levantou-se e foi até a cama. Sobre ela, tocava um despertador, com uma melodia repetida e já ignorada há tanto tempo. Voltou e sentou-se à frente do computador novamente. Uma dor no peito, forte. Um começo de pneumonia, talvez, considerando aquela tosse estranha. Ou um começo de fim, não sabia dizer. Seus braços não pareciam seus e sua mente não parecia sua. O mundo todo, de repente, lhe era estranho, como se nunca pertencera àquele lugar. Não haviam cores e os perfumes cheiravam a poeira. Os sabores desapareceram. Lá dentro, uma única chama, um sentimento. Um restinho de cor. Dourado. Parecia ser a luz que mantinha seu coração batendo, um coração apertado, um coração que começava a esfriar. No relógio faltavam cinco minutos, sabe-se lá pra que hora em especial. Já não importava mais. Já não havia especial. Até mesmo os dedos que batiam o teclado pareciam pesados, como se feitos de puro chumbo, batiam maquinalmente seguindo o ritmo de uma mente em arritmia. Mas já não importava mais. Essa era a vida. E ela deveria seguir, sabe-se lá como.

"Eu sou uma aberração", leu ele. E sorriu, um sorriso com um leve toque de ironia. "E sou mesmo", pensou, com aquela dor estranha no peito. Incrível como ainda se reconhecia em todas aquelas palavras, fossem quais fossem. Incrível como ainda se via naqueles olhos, como ainda respirava aquele perfume. Bastava fechar os olhos e lá vinha aquele aroma de flores e frutas. Bastava reabri-los e lá estavam aqueles dois cômodos escuros e frios. Tão pequenos outrora, tão imensamente gigantescos e insuportáveis agora. O despertador toca outra vez, é a hora que se aproxima. Que hora, não se sabe dizer. O pensamento não pensa mais, é o corpo que assume o comando, deixando uma espécie de piloto automático conduzir-lhe a vida. Por fora, poucos vêem. "É o cansaço", diz ele, convincentemente. Um sorriso leve nos lábios, vazio, vestido à força naquele corpo que agora vive por conta própria, sem um comando. Um corpo que já não parece seu, uma vontade que já não lhe pertence mais. De olhos fechados, só o que sente são imaginações. Um cabelo a roçar-lhe o peito, mãos a acariciarem-lhe os ombros, lábios que lhe tocam o pescoço, o som cristalino de uma gargalhada, o perfume envolvente de um corpo.

Mas novembro vem, lavando os últimos maus espíritos do inverno. E ainda que ele se sinta como o próprio mau espírito, pede pra ser lavado. Pede pra ser renovado. Pede por surpresas boas, sejam elas quais forem. Sabe que virão, ainda que não veja perspectiva agora. Sabe que o mundo continua a girar. O despertador tocará novamente em alguns minutos, é a hora que se aproxima. Pouco a pouco, um dia ele tomará consciência de que a hora que chega é a hora de viver. De retomar a vida. Enquanto houver vida, há esperança, dizem alguns. Enquanto houver esperança, há aquela chama dourada, aquele último resquício de calor, aquela última vontade de fazer, aquele restinho de cor. Que venha novembro, lavando os maus espíritos e transformando-os em mensageiros da boa nova. Que venha o tempo que vier, trazendo o que trouxer. Porque, ainda que lá dentro, em ruínas, um viajante perdido procure o caminho de volta, lá fora ainda há um sorriso. Meio automático, meio intencional. Necessário. Uma promessa a ser cumprida, um último compromisso assumido. E aqueles dedos, pesados como chumbo, pouco a pouco começam a se movimentar com mais leveza, implorando, pedindo a qualquer entidade suprema existente, que se ainda há alguma esperança de cura nessas mãos, que se manifeste trazendo boas palavras e toques delicados.

Anjo

E eis que ela surgiu, em um vestido azul anil, longo e esvoaçante. Aquele caminhar volitante, leve porém resoluto, os quadris se movendo de um modo firme porém delicado. Seus olhos cor de madeira traziam uma expressão serena, com a profundidade de um oceano e a beleza de um entardecer. E quando se movimentava, era como se o ar desse passagem a cada graciosidade que seu corpo produzia. E então ele piscou e esfregou os olhos, como se quisesse ter certeza de estar acordado. E quando os abriu novamente, aquele breu fez com que tateasse ao redor até tocar o interruptor, e tudo que viu foi um teto branco levemente amarelado, sugerindo que despertara. E antes que pudesse duvidar, o canto do despertador trouxe-lhe a certeza do que era real e do que fora onírico. Levantou-se, banhou-se, vestiu-se, alimentou-se, encaminhou-se, trabalhou-se, alimentou-se novamente, trabalhou-se mais, voltou-se, banhou-se outra vez, vestiu-se de novo e deitou-se. Um dia comum. Mais um dia comum. Mas com aquela constância no pensamento, aquela imagem de sonho que fixara-se em sua mente e movimentara sua imaginação. E, a muito custo, finalmente adormeceu. E então ele a viu.

Estava sentada diante dele, sobre uma pedra. Olhou ao redor e viu-se numa clareira, rodeada de árvores frondosas e salpicada de pequenas flores coloridas que interagiam com a veste azul anil que ela usava. Ele a encarou, com medo de piscar. E observaram-se mutuamente, sabe-se lá por quanto tempo. E quando se tornou inevitável, ele piscou, e reabriu os olhos, temeroso. E eis que ela ainda estava lá. E então ele sentou, com um leve sorriso de alívio. E ela retribuiu o sorriso. E nesse momento, o sol brilhou mais forte, as flores coloriram mais intensamente, os pássaros cantaram com mais vigor, o vento soprou com mais carinho. Pelo menos, foi assim que ele sentiu aquele sorriso. “Quem é você?” perguntou ele, com uma coragem vinda sabe-se lá de onde. “Ninguém importante” respondeu ela. “Como, ninguém importante? Seus olhos brilham e o seu sorriso ilumina. Sua presença parece ser suficiente para que todas as cores ganhem vida e para que o mundo se anime! Como é possível que seja ninguém importante?! Diga-me seu nome, por favor!” E então ela perguntou o que ele achava do bosque. Se gostava das flores. Se a luminosidade o agradava. E o convidou a um passeio. E ele foi sem saber seu nome, e sem se importar com isso. Andaram e riram e conversaram e desfrutaram até chegarem à beira do lago, onde ela então se despediu. “Vou vê-la novamente?” questionou. “Quem sabe...” respondeu. E então ele viu aquele rosto angélico se aproximando e fechou os olhos para recebê-lo. Sentiu o doce contato daqueles lábios a tocarem-lhe a ponta do nariz, e abruiu os olhos a tempo de ver o sol nascendo através de sua janela. E assim, com uma certa dificuldade, levantou-se e seguiu-se em sua rotina, repetindo cada passo daquela noite em sua memória. E naquela noite, o sono veio com a fluidez de um córrego que desce a montanha. Ainda de olhos fechados, sentiu aquele calor agradável a banhar-lhe o corpo. Sorriu, e abriu os olhos, e lá estava ela com aquele sorriso estelar.

E assim se seguiram os dias. Ao nascer do sol, despertava e seguia sua rotina usual. Ao deitar-se, despertava do outro lado e vivia seu sonho. Anjo, era como ele a chamava. Não lhe importava o nome, desde que ela estivesse lá. Até a noite em que ela não esteve. Naquela noite, sonhou com aviões, aventuras, animais e muitas outras fantasias, mas ela não veio. E na noite seguinte também. E na outra. Na quarta noite, lá estava ela, aquele vestido azul anil e aquele sorriso ensolarado. Mas, por um momento, aquela visão não foi suficiente para iluminá-lo. Numa quase carranca, perguntou “Onde esteve? Por que não veio, por que se ausentou todo esse tempo?” Seu sorriso desmanchou-se numa serena seriedade enquanto respondia “Porque não pude. Ou porque não quis. Não importa, são motivos meus. Não sou propriedade sua, sou livre, vou e volto como bem entender. E se hoje estou aqui, é porque quero estar aqui.” E então ele fechou seu rosto em dúvida ao perguntar “Como? Isso é um sonho, um sonho meu. De que forma você pode ir e voltar como quiser se sou eu que estou a sonhar?” Então, esboçando um sorriso compreensivo como quem fala a uma criança, disse “Um sonho? Seu sonho? Ainda não entendeu, não é?...” “Mas se isso não é um sonho, então o que é?...” perguntou novamente. E antes que terminasse a frase, sentiu sua mão a tocar-lhe o rosto, um toque quente, suave, real! Pôs sua mão sobre a dela e sentiu-a ainda mais delicada, ainda mais real... E então, num impulso de vida e desejo, levou aquela mão àquele rosto semidivino e envolveu-a pela cintura e trouxe-a para aquele tão esperado beijo. E pouco a pouco sentiu aquele contato esvair-se até ser despertado pelo sol que aquecia seus pés. Sentindo ainda a boca quente e seu espírito em êxtase, trouxe a mão ao rosto e sentiu aquele perfume de flores e frutas e então compreendeu.

E então passou outra noite a sonhar coisas irreais. E durante o dia, revivia em sua memória cada momento experimentado naquele outro mundo. E outra noite vazia se seguiu àquela. E mais outra. E outras mais. Até que novamente deitou-se e sentiu aquele calor familiar. E respirou aquele perfume esperado. “Pensei que não a veria mais” disse, de olhos ainda fechados. “E não veria”, disse ela, “mas foi mais forte que eu...”, enquanto acariciava-lhe os cabelos. E quando enfim abriu os olhos, viu aquele queixo desenhado pelos anjos e aqueles olhos de madeira a observá-los de cima, com uma ternura que lhe era desconhecida até então. Fechou novamente os olhos, a desfrutar, enquanto indagava “Quando irei vê-la de verdade?” “Mas isso, aqui, agora, é verdade!” respondeu ela. “Sim, eu sei, mas... bem... quero dizer, quando irei vê-la acordado?” replicou ele. “Mas você está acordado”, treplicou ela, e antes que ele formulasse nova frase, continuou “o que ainda não entendeu, ou não aceitou, é que algo em você deve adormecer para que outra parte desperte. De lá para cá, de cá para lá, não importa. Algo adormece para que outro desperte.” E ele meditou aquelas palavras no silêncio daquele afago. “Mas... onde é cá?” perguntou enfim. “Também não sei”, respondeu ela, “só sei que cá é onde posso encontrá-lo, como se fosse um mundo só nosso...” E assim viveram novos dias, naquele sentimento novo e crescente e diferente e... fantástico! Até que outro despertar aconteceu...

Ele abriu os olhos e sentiu um calor diferente. Familiar, mais familiar que outros calores. Olhou ao seu redor e parecia reconhecer aquela paisagem. Parecia... seu mundo. As cores eram mais vivas e as sensações mais intensas. As vibrações mais radiantes e os perfumes mais marcantes. “Ah, sim, agora faz sentido...” ouviu, no som cristalino daquela voz tão desejada. Virou-se e viu-a, em um vestido azul ciano mais leve e mais curto, fresco como se espera que seja naquele mundo de calor. “Mas... o que você está fazendo aqui?” perguntou, num misto de surpresa e alegria. “Esse lugar, esse espaço, esse mundo, onde estamos?” foi a vez dela perguntar. “Aqui é onde vivo, onde existo. Aqui é onde aconteço. Parece diferente, de alguma forma que não consigo explicar. Como se fosse... mais real que a minha realidade, talvez... Mas... como você chegou até aqui?” “Não sei. Assim como não sei como criamos aquele mundo só nosso. Talvez sua vontade de me trazer até aqui. Talvez minha vontade de estar ao seu lado. Talvez todos os fatores juntos. Não sei. Mas sei que estou aqui e gostaria de aproveitar ao máximo cada momento...!” E sorriu aquele sorriso capaz de iluminar uma vida. E ele sorriu de volta aquele sorriso digno de quem recebe uma vida. E levou-a a conhecer seu mundo. Mostrou-lhe seus motivos e suas alegrias, suas tristezas e seus pensamentos, seus sonhos e suas verdades. E ao término daquele passeio, perguntou-lhe “E quando conhecerei seu mundo?...” “Não sei”, respondeu-lhe, francamente, “honestamente, não sei. Um dia, talvez. Nunca, quem sabe. Não sei se estou pronta para recebê-lo lá. Não sei se algum dia estarei...” E apesar daquela resposta incerta, gostou daquela nova possibilidade. E então, suas noites passaram a alternar-se entre um mundo e outro mundo. E algumas noites vazias também, que passou a chamar de noites essenciais, pois renovavam-lhe a saudade e a vontade e o desejo e a certeza. E assim seguiu, sabe-se lá por quanto tempo, uma medida que não existia naquele mundo onde se encontravam. Até o dia em que despertou, surpreso novamente. Olhou ao redor e viu um mundo de cores extravagantes e perfumes diferentes, levemente embaçado e nebuloso. Tinha dificuldade em distinguir formas, esfregava os olhos e caminhava com passos cambaleantes, até que viu. Até que a viu. Vestida em um macacão azul celeste sobre uma camiseta azul índigo, confortável embora confusa, parecia não entender. E então ele sorriu, pela primeira vez um sorriso capaz de iluminar um dia. E então tudo ficou claro, enquanto ele caminhava resoluto em direção à dona daquele universo que até então lhe era desconhecido...

No dia em que os anjos desceram à terra

Aconteceu no dia em que os anjos desceram à terra. Eu me lembro como se fosse ontem. Eram apenas algumas centenas deles. Poucos, se comparados aos que existem hoje. Ainda estavam no começo de sua criação e vinham conhecer o mundo onde atuariam. Tudo ainda era novo, um tanto quanto rústico, pura virgindade de um solo que ainda seria cultivado. E foi ali que aquela legião angélica aportou, em seus deslumbrantes mantos esvoaçantes e suas alvas asas majestosas. Seus olhos brilhavam, aguçados pela curiosidade daquilo que os esperava, mas não possuíam auréolas, ainda, visto que não havia motivos para merecê-las. E foi assim que tiveram o primeiro contato.

Era uma raça rústica, tão virgem quanto o chão que pisava. Comunicavam-se aos trancos e barrancos, com grunhidos guturais quase incompreensíveis e uma linguagem corporal baseada na violência. Eram poucos, menos ainda que os anjos, desprovidos de asas e graciosidade. Os alados riam-se da infância daquela raça ignorante, compreendendo suas intenções ainda primitivas e meramente sobrevivenciais. Até que o primeiro deles, tomando coragem, decidiu-se por se aproximar de um dos outros. E observou que ele parecia mudar ante sua aproximação. Serenava-se, como se pudesse senti-lo, apesar de não vê-lo. E, inspirado por aquela serenidade, soprou um carinho e viu aquela sobrevivência demonstrar um toque de convivência quando aquela linguagem violenta delicadamente deu lugar a um toque humano. Inesperadamente, ou talvez nem tão inesperado assim, a reação de outro dos outros foi um choque explosivo que afastou o primeiro e repeliu a entidade angélica, dando lugar novamente à natureza daqueles primitivos. Rápida e instintivamente, um segundo anjo concentrou-se no segundo quasihumano que reagiu com a serenidade do primeiro, interrompendo um gesto quase fatal, como se enfim compreendese o quão vil seria. E a legião angélica então assombrou-se com seu próprio poder.

E um a um, experimentaram aquela atitude. Por aproximação ou por pensamento, afinaram-se com aqueles irmãos ignorantes. E eles, também novos no universo, começaram a compreender e a enxergar a complexidade daquela raça ainda em evolução. Passaram a enxergar vontades e aspirações que não viam como meros observadores. E aos poucos, aqui e ali, alinharam-se com esse desejo ou com aquela inspiração, e um a um, sintonizaram-se com seus protegidos. Exceto aquele primeiro anjo, que junto a um pequeno grupo, afinava-se e compartilhava de todas aquelas aspirações. Desejavam todos os desejos e inspiravam-se com todas as vontades. E então, quando os anjos enfim compreenderam o intuito de sua criação, prepararam-se para retornar e se reunir com o criador para que pudessem caminhar com seu trabalho de cocriadores. Todos, exceto aquele primeiro anjo e aquele pequeno grupo. Ansiavam o trabalho, mas desejavam a proximidade. Sem saber o que fazer, ajoelharam-se e confiaram na providência daquele que os havia enviado.

E assim, enquanto se encaminhava para a presença do criador, Miguel, o mais famoso dos anjos, voltou-se para observar seus pequenos irmãos uma última vez, e o que viu foi aquela pequena leigão, toda composta de anjos mulheres, ajoelhada, confiando. Aos poucos, suas asas iam-se desmanchando, pena a pena, e seus corpos pareciam menos radiantes e mais densos. E aquela raça que ainda engatinhava começava a tomar consciência daquelas presenças que se materializavam bem à sua frente. E assim nasceram as primeiras mulheres humanas, cocriadoras de origem angelical prontas a suprimir o quasi que essa raça recém-nascida levava. E, embora aquela legião houvesse renunciado a toda a leveza que possuía, Miguel não temia, pois o brilho nos olhos e o amor no toque revelavam que a humanidade jamais poderia apagar a angelitude daquelas sublimes entidades.

Libertação

"Pensa no inferno" foi a frase dita antes do disparo. E então ouviu-se aquele som de pólvora explodindo no cartucho de uma arma de fogo.

Tudo começara muitos anos antes. Tantos que nem dava mais para contar. Uma história que se confundia com a própria vida daqueles dois personagens. A opressão e a submissão, porque toda passividade precisa de uma atividade. De um lado, aquele que recebia ordens, realizava desejos, acatava imposições e nunca se queixava. De outro, aquele que ordenava, e só. Desde o começo fora assim, até que a submissão se cansou de submeter-se quando passou a observar o mundo. Via cores e sabores, via formas e conteúdos. E quando tentou alcançá-los, percebeu as grades que a restringiam. Foi então que passou a observar o entorno de si e percebeu o que construíra: um mundo limitado, engaiolado, que, de repente, tornou-se intensamente sufocante. E foi por isso que tentou conversar.

Mas não soube quais palavras utilizar, visto que nunca precisara delas. Percebeu que sequer conhecia o som da própria voz. E, quando tentou pensar no que gostaria de dizer, notou que não sabia o que gostaria, quiçá o que dizer! E implorava com os olhos, mas a outra personagem não os via. Gemia súplicas que, quando ouvidas, eram rechaçadas com grunhidos agressivos e opressores. E, assim, pouco a pouco, minguou. Qual uma estrela que perde o brilho e pouco a pouco se retrai. E, qual uma estrela retraída, que armazena energia até que se torna incapaz de contê-la, explodiu como se fosse uma supernova. E foi então que aconteceu.

Naquele dia, tudo parecia diferente. O café parecia mais doce, percebeu aquele que oprimia. "Que café melado!" reclamou. "Eu gosto assim", ouviu, surpreso, ao perceber de onde vinha a voz. Achou por bem ignorar e seguiu seu caminho, deixando pelo caminho uma xícara meio vazia de café. Não sabia explicar se era a falta do estimulante matinal ou aquela voz surpreendente que afetara sua capacidade, mas o fato era que aquela manhã estava diferente. O trabalho tinha outro ritmo, o ar tinha outro odor e sentia-se a si mesma como uma pessoa diferente. E com essa informação ainda em processamento, dirigiu-se para o almoço em casa. Uma nova surpresa quando encontrou a outra sentada à mesa, já se alimentando. "E o meu prato?" perguntou. E um dedo de boca cheia apontou para a louça vazia que jazia sobre o outro extremo da mesa. "E a comida?" tornou a perguntar. E o mesmo dedo apontou para o fogão. "Não vai me servir?" oprimiu. Silêncio. E somente quando o conteúdo daquela boca foi deglutido, pôde ouvir um "Não" bruscamente interrompido por outra porção de alimento. Estupefato, sem saber o que fazer ou falar, dirigiu-se às panelas e inspecionou o conteúdo. "Sabe que não gosto disso", reclamou. Silêncio. Quis oprimir, quis agredir, mas sua boca abriu-se e fechou-se incapaz de articular uma resposta. Era como se aquele ar denso e pesado estivesse limitando-o. Sentia-se... oprimido. "Vou almoçar na rua", desafiou, e viu-se obrigada a cumprir quando só obteve silêncio como resposta. E aquela tarde transcorreu ainda mais estranha. Não sabia como agir ou reagir. O mundo parecia desafiá-lo e tudo parecia desconexo. E, enquanto voltava para casa ao término daquele dia que parecia combinado para confundi-lo, tentando reorganizar idéias que o deixavam cada vez mais confusa, a única coisa que conseguia pensar era que aquilo precisava acabar naquele mesmo dia! E acabaria.

Abriu a porta e entrou, resoluto, punhos cerrados e respiração bufante numa postura ameaçadora. E a última coisa que sentiu foi uma dor intensa na nuca. Despertou com a cabeça pendendo sobre o peito. Gemeu e tentou amaldiçoar, mas sua boca amordaçada não proferiu aquelas palavras. Quis se mexer, mas seus movimentos foram limitados por cordas em seus punhos e cotovelos e ombros e tornozelos e joelhos e quadris. Olhou em volta, já desesperado, e reconheceu o terraço do prédio onde vivia, parcamente iluminado pelas estrelas. "É ruim, não é?" ouviu, naquela voz que ainda lhe soava estranha, mas que já era capaz de reconhecer o dono. "As amarras, a mordaça, a postura imposta por outra pessoa. A incerteza e a insegurança de ter de obedecer e confiar naquele que supostamente possui uma força maior que a sua." E então sentiu o toque frio e arredondado de uma extremidade metálica. E paralisou-se, numa demonstração extrema do mais puro medo. Sentiu aquele toque se afastando e então ouviu novamente aquela voz, vinda de um lugar mais distante. "Pensa no inferno" foi a frase dita antes do disparo. E então ouviu-se aquele som de pólvora explodindo no cartucho de uma arma de fogo. Seguido de silêncio. Não sentira impacto. Não sentia sangue escorrendo. Não havia dor. Portanto... E então uma lágrima. E outra lágrima. Seguidas de outras dezenas que se ligavam umas às outras formando um fluxo contínuo de compreensão e arrependimento e dor e sofrimento. "Dói, não dói?" E o som daquela voz misturou um pouco de alívio e medo ao sabor daquelas lágrimas. "Imagine, então, uma vida inteira assim. Mas sem entender o que acontecia. Até finalmente sentir a ficha cair e a compreensão chegar. E então sentir a incapacidade de se libertar. Mas tudo tem um limite e eu fui até onde pude, até ter que escolher entre implodir ou explodir. Eu quis te matar hoje, mas não suportaria viver com seu cadáver na minha consciência. Eu quis me matar hoje, mas isso não resolveria meu problema. Por isso, antes que chegasse a esse extremo, eu resolvi me libertar. E por isso, eu estou indo embora." Sentiu as cordas que lhe prendiam os braços se afrouxarem. E, quando se virou, só teve tempo de ouvir um desejo de "Seja feliz" proferido por aquele anjo que se libertava do cativeiro.

Repaginando

"Preciso escrever..." repetia ele para seus próprios ouvidos, incessantemente. Há dias. Há muitos dias. Tantos dias que quase compunham anos. "Preciso escrever..." insistia ele, em frente à tela do computador com o cursor piscante do editor de texto. Estático, ele mais que o cursor, cujo único movimento era o piscar característico daquela ferramenta. Nada de muito preocupante, para pessoas em geral. Mas para um escritor, era um problema considerável. Quase dois anos. Há mais de metade desse tempo, a editora o pressionava por um novo best seller. E ele lá, tentando. Tentando. E tentando. Mas não conseguia. Faltava-lhe... Pois é, faltava-lhe tanto, que sequer sabia dizer o que lhe faltava. Mas sabia que faltava. E não encontrava. E sentava ali, diariamente, horas a fio, estaticamente, pulsando na mesma freqüência do cursor, produzindo tanto quanto uma abelha falecida. E então, preservando a rotina já estabelecida há tantos dias que compunham anos, levantou-se. "Espairecer e buscar inspiração" era o motivo que justificava para a própria consciência. Carteira de cigarros na mão e isqueiro no bolso. "Lá fora, o mundo é cheio e as idéias são vastas, quem sabe é hoje..." pedia ele, sabe-se lá a quem.

E, naquele dia, nem mesmo precisou ir longe. Logo ao sair do portão de sua solitária moradia, ainda acostumando-se à luz intensa daquele sol escaldante, a mão esquerda ascendia o filtro do cigarro até a boca enquanto a direita trazia o isqueiro. Sem saber uma causa ou razão que pudesse explicar o porquê, olhou naquela direção e viu. O polegar estacou em uma mão imobilizada a meio caminho entre o bolso e os lábios que prenderam o cigarro que escapou dos dedos. Estático, plenamente. Nem mesmo o pulsar do cursor o mobilizava. Mas, dessa vez, não havia apatia ou acinesia. Só o que havia era aquela visão. Cabelos longos e soltos. Não eram tão volumosos, mas desciam tal e qual a corredeira mansa de um riacho em paz. Lábios pequenos e intensos e olhos vivos e brilhantes. Cativantes. Uma simetria que beirava o fascinante e ultrapassava o maravilhoso quando os olhos percorriam todo aquele corpo em harmonia consigo mesmo. E então, ele viu. A si próprio. Aproximou-se dela com um discreto e quase inaudível "Com licença, tem fogo? Meu isqueiro acabou de acabar..." com uma expressão envernizada num sorriso tímido de quem se sente incomodado pelo incômodo que causa. "Desculpe, mas não fumo" foi a resposta, educada porém terminal. "Faz bem, fumar mata, dizem por aí... Mas não tem nem um fósforo de acender fogão? Preciso muito acender esse cigarro agora..." foi a resposta dada por uma face tão polida que brilhava aquela timidez meiga, sedutora e calculada. "Um momento, vou ver com a minha vó" replicou um olhar antes frio porém agora curioso. Foi e voltou em poucos minutos com uma caixa de poucos fósforos desculpando-se "Só tinha os de acender incenso, pode ser?" "Claro... Muito obrigado" foi o retorno de um rosto aliviado. "Você está bem?" perguntou ela, com sincero interesse. "Estou sim... Apenas um pequeno problema que tem me incomodado um pouco, mas espero resolver logo." "E eu posso ajudar em algo?" "Já está ajudando, na verdade. Eu só precisava de um motivo pra puxar assunto e meu problema seria você entrar pra pegar os fósforos e não voltar..." respondeu um sorriso de verniz lixado e honesta expressão amadeirada. E ela, sorrindo um sorriso de 'eu sabia', pede "Autografa meu livro?" "Como?" "Autografa meu livro? Você é aquele escritor, não é? Tá um pouco mais novo na foto, com todo respeito, mas é você, né?" Um suspiro e uma expressão de 'não é bem assim' e ele diz "Se quiser, eu autografo, mas a única coisa que eu escrevo são listas de supermercado e folhas de cheque sem fundo. Mas, pra um rosto tão bonito e angelical, fica difícil recusar um pedido desses." E ela, agora com uma vermelhidão crescente e ascendente a aquecer-lhe todo o rosto, pergunta "Mas não é você?" "Adoraria, mas não... Tenho que admitir que somos bem parecidos, e você não é a primeira que faz essa confusão, mas infelizmente não sou eu. Não tenho capacidade pra escrever tão bem assim..." respondeu ele como quem acredita em uma crença que começa a nascer em seu próprio pensamento. E, vendo-a esconder-se atrás do livro, rubra qual uma maçã madura, concluiu "Mas não se preocupe, não me incomodo. Gostaria de ser tão bom quanto ele, mas nem todos nascem com esse dom... Eu tenho outros, felizmente." "Sério? E quais são seus dons?" devolve ela, ainda hiperemiada acima do normal. "Não posso comentar em público e muito menos nesse horário... Se quiser, podemos ir pro meu quarto e eu te conto lá..." foi a resposta acompanhada de um sorriso de intenção pouco esclarecida. Uma expressão surpresa que tanto podia ser sincera quanto fingida respondeu "Que indecência! Fazendo uma proposta dessas pra uma moça de respeito no meio da rua!" E ele, com um sorriso agora debochado "Calma, anjo... Não quero ofender sua dignidade, mas não podemos falar de assassinatos em série em plena luz do dia, concorda?!" Uma gargalhada sonora, sincera. "É, tem razão... Aí fica meio arriscado. E, pelo visto, bom humor é outro desses dons, né?!" "O maior deles, talvez..." foi a resposta de um sorriso cativante recebida por um olhar cativado.

E, nesse momento, a mão direita devolveu o isqueiro no bolso e os dedos da esquerda pescaram o cigarro que ameaçava cair. Ainda via a projeção mental do seu próprio ser interagindo com aquela musa que sequer sabia quão inspiradora era. E, apesar de a verdadeira não ter acompanhado o deslocamento da criação onírica daquela mente divagante, aquele casal saiu dali em direção a 'outro lugar' para que pudessem 'se conhecer melhor', enquanto ele voltava para dentro de casa. Economizara um cigarro, mas usaria aquele cursor piscante como há muito não o fazia. Não acreditava em amor à primeira vista. Não acreditava em divindade. Não acreditava em muita coisa. Aliás, acreditava em nada. Mas não precisava acreditar. Nunca precisara. Desde sempre, fora um criador de crenças, e não um crédulo. E sabia que por isso era lido. E, mesmo sabendo que precisava repaginar-se, reinventar-se, renovar-se, não o fazia. Ao menos, não externamente. Estava sozinho. Ou melhor, era sozinho. Muito mais que um estado, aquela solidão era uma característica inerente, indissociável do seu ser. Por opção, pura e simples opção. Consciente, acredite se quiser. E, quando questionado se não sentia falta de viver uma vida, ele respondeu "Não, porque eu vivo várias vidas." E era assim que escrevia a própria história. Seu espírito era livre para viver quantas vidas quisesse. E seu corpo estaria sempre ali, pronto para transformá-las em sucessos literários.